Atritos entre governadores e seus vices mudam cenário eleitoral em estados

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Em ao menos cinco estados onde os governadores estão impossibilitados de disputar a reeleição neste ano, uma tradição da política brasileira deverá ser rompida: os mandatários anunciaram a disposição de abrir mão de candidaturas ao Senado para permanecer no cargo. Na maioria dos casos, entre os principais motivos dessas decisões estão desavenças políticas com seus vices e a disputa pelo controle da máquina pública.

Em linhas gerais, conforme a legislação eleitoral, se quiserem concorrer a qualquer outro mandato neste ano, os governadores precisam se desincompatibilizar dos cargos até o dia 4 de abril próximo, entregando o comando dos estados aos vices ou aos presidentes das Assembleias Legislativas, que são os terceiros na linha sucessória.

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Desde que a reeleição para cargos Executivos foi instituída no Brasil, em 1997, essa regra vem sendo usada para favorecer a continuidade de grupos políticos no poder regional. Ou seja, o vice que assume o governo ou a prefeitura costuma concorrer a um novo mandato no cargo. 

Não por outro motivo, dos 18 estados, mais o Distrito Federal, que neste ano possuem governadores em segundo mandato, em 14 unidades federativas o vice assumirá e disputará a reeleição, quase sempre com o apoio de seu antecessor. É o caso, por exemplo, de Minas Gerais, onde Mateus Simões (PSD) tomará posse e concorrerá à sucessão de Romeu Zema (Novo) com o apoio do atual mandatário. Em muitos casos, essas combinações são feitas com a antecedência de dois mandatos, o que tem valorizado o posto de vice na composição das chapas eleitorais.

Neste ano, as “exceções”, ao menos por ora, deverão ser os estados do Alagoas, Amazonas, Maranhão, Rio Grande Norte e Tocantins, onde os atuais governadores, muito deles bem posicionados nas pesquisas de intenção de voto para o Senado, querem permanecer no comando das atuais gestões até 6 de janeiro do ano que vem (nova data da posse dos eleitos), mesmo que isso implique ficarem sem mandato a partir dessa data. 

Além de influenciar na disputa pelo Executivo nesses estados, as decisões dos governadores terão impacto nos cenários eleitorais para o Senado, pois três deles costumam aparecer bem posicionados nas sondagens para a Câmara Alta realizadas até agora. 

Rio Grande do Norte

No Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra (PT), que seria candidata a senadora com o apoio do presidente Lula, foi explícita quanto aos motivos que a levaram a tomar a decisão de cumprir a integralidade do mandato: “Para viabilizar a candidatura ao Senado era necessário que o vice assumisse o governo, mas ele rompeu o compromisso firmado em 2022, atendendo a interesses de uma velha elite que nunca aceitou um RN governado pelo povo. São escolhas e motivações que o tempo há de esclarecer e que impediram de assumir a tarefa mais honrosa que um cidadão pode ter: governar o Estado”, afirmou ela em uma carta divulgada em redes sociais.

A governadora decidiu lançar seu secretário da Fazenda, Cadu Xavier (PT), à sua sucessão. O atual vice Walter Alves (MDB), que assumiria o cargo em abril, deve apoiar a pré-candidatura de Allyson Bezerra (União Brasil), atual prefeito de Mossoró e adversário do grupo de Fátima, para o governo.

Fátima Bezerra era uma das apostas do PT e de Lula para ficar com uma vaga no Senado a partir de 2027 e aparece bem posicionada nas pesquisas. Agora, a governadora deverá apoiar Natália Bonavides (PT). No campo oposto ao da petista, Styvenson Valentim (PSDB) e Álvaro Dias (Republicanos) devem seguir entre os favoritos.

Maranhão 

Situação semelhante ocorre no Maranhão. Carlos Brandão (sem partido), bem posicionado nas pesquisas para o Senado, tem dito que permanecerá no cargo. Com isso, o atual vice, Felipe Camarão (PT), pré-candidato ao governo do estado, não concorrerá à frente da máquina estatal, o que costuma representar uma grande vantagem eleitoral. Os dois grupos estão rompidos, e o atual mandatário lançou seu sobrinho Orleans Brandão (MDB) à sua sucessão.

Esse é mais um capítulo na disputa entre os grupos políticos de Brandão e do ministro do STF Flávio Dino, de quem o atual governador foi vice até 2022, quando assumiu o cargo após a desincompatibilização do titular e se reelegeu, em um exemplo bem sucedido desse tipo de articulação. Neste ano, porém, o magistrado é simpatizante da pré-candidatura de Camarão.

O PSD tenta viabilizar a pré-candidatura de Eduardo Braide, prefeito de São Luís, ao governo. Nesse caso, ele também terá de se desincompatibilizar em abril. Ele conta com apoio do presidente nacional de seu partido, Gilberto Kassab, e aparece bem posicionado nas pesquisas.

Brandão, conforme as pesquisas, desponta como favorito para ficar com uma das vagas no Senado. Se mantiver o que vem dizendo, no entanto, ele abrirá espaço para aliados quanto para adversários. Os nomes mais cogitados atualmente são: Roberto Rocha (Republicanos), Weverton (PDT), André Fufuca (PP) e Eliziane Gama (PSD)

Tocantins

No Tocantins, Wanderlei Barbosa (Republicanos) rompeu com seu vice, Laurez Moreira (PSD), e também tem afirmado que não se desincompatibilizará em abril. “Não sou candidato. Vou terminar o meu mandato”, disse, em evento público no dia 5 deste mês. O governador está sob pressão de seus correligionários para disputar o Senado, mas, para evitar que o desafeto político assuma o cargo e concorra à reeleição, deverá apoiar a senadora Professora Dorinha (União Brasil).

O futuro de Laurez ainda é incerto, pois o senador Irajá permanece como principal líder do PSD no estado e ainda segue como nome lembrado para concorrer ao governo. Ambos buscam construir uma candidatura para enfrentar Dorinha e o grupo político de Barbosa.

Sem Barbosa na disputa pelo Senado, Eduardo Gomes (PL) e Irajá devem seguir como favoritos para ocupar as duas vagas do estado.

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Amazonas

A situação política no Amazonas é um pouco diferente. Wilson Lima (União Brasil) mantinha uma boa relação com seu vice, Tadeu de Souza (PP), até o início deste ano. O governador, no entanto, anunciou, no início deste mês, que permanecerá no cargo até o último dia do mandato.

Nos bastidores, aliados de ambos avaliam que Lima ficou incomodado com as movimentações do vice, que já teria até uma lista com nomes de novos secretários a serem empossados em abril. Souza alimentava pretensões de assumir o comando e concorrer à reeleição.

A disposição de Lima no sentido de permanecer no cargo teria como principal objetivo evitar um “esvaziamento” de seu poder político. O governador é alvo de investigações relacionadas principalmente à sua gestão durante a pandemia de Covid-19, no âmbito da Operação Sangria.

Se Souza não se viabilizar, o grupo político de governador terá de escolher um outro candidato para enfrentar, principalmente, Maria do Carmo Seffair (PL), escolhida pelo presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) para disputar o governo, e o senador Omar Aziz (PSD), que lideram as mais recentes pesquisas.

O cenário pré-eleitoral no Amazonas inclui ainda o prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), que precisará deixar o cargo em abril para concorrer.

Alagoas

Paulo Dantas (MDB) deve permanecer no governo até o final do mandato e anunciou disposição de concorrer eleitoralmente apenas em 2030. Ele manifestou publicamente apoio ao ministro Renan Filho (MDB) para sua sucessão no governo e à reeleição de Renan Calheiros (MDB) no Senado.

Com a decisão de Dantas, o atual vice, Ronaldo Lessa (PDT), vem sendo estimulado a disputar uma vaga no Senado em cenário “congestionado” pela presença de outros veteranos da política alagoana, como Renan e o ex-presidente da Câmara, Arthur Lira (PP).

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