
Os resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) tornam explícito um problema central da educação médica no Brasil, a desigualdade na qualidade dos cenários de prática.
Mais do que avaliar estudantes, o exame revela diferenças estruturais entre cursos e mostra, com relativa objetividade, onde a formação funciona melhor. O padrão é consistente. Alunos inseridos precocemente em ambientes assistenciais organizados, com supervisão qualificada, apresentam melhor desempenho.
Não é um achado novo. Mas raramente ele aparece de forma tão clara e mensurável em escala nacional.
Entre as instituições com melhores resultados, destacam-se aquelas que contam com hospitais de ensino estruturados, com integração efetiva entre assistência, ensino e pesquisa e alinhados a princípios há muito defendidos pela Associação Brasileira de Hospitais Universitários e de Ensino, a ABRAHUE. A diferença não está apenas no acesso a um hospital, mas na qualidade desse ambiente como espaço formador.
Esses hospitais não são apenas locais de treinamento. São espaços onde o estudante acompanha a evolução dos pacientes, participa das decisões clínicas e compreende, na prática, o funcionamento do sistema de saúde. A formação deixa de ser fragmentada e passa a ser contínua, contextualizada e progressivamente mais complexa.
Hospitais de ensino bem organizados oferecem algo difícil de substituir. Reúnem diversidade de casos, continuidade do cuidado e presença ativa de preceptores. É nesse ambiente que o estudante aprende a tomar decisões, a lidar com incertezas e a assumir responsabilidade progressiva.
Nos cursos com desempenho inferior, o cenário costuma ser outro. Inserção tardia nos serviços, acesso limitado a campos de prática e preceptoria insuficiente produzem uma formação fragmentada, mais teórica do que aplicada. O resultado aparece no desempenho dos alunos, mas suas consequências vão além das provas.
O Enamed evidencia, portanto, não apenas diferenças de desempenho, mas desigualdade de oportunidades formativas. Nem todos os estudantes têm acesso às mesmas condições de aprendizagem prática, e isso precisa ser enfrentado como um problema estrutural.
Parte dessa desigualdade decorre da expansão de cursos médicos que não foi acompanhada, em todos os casos, pela mesma qualidade na estrutura de prática. A abertura de vagas sem a garantia de cenários assistenciais adequados fragiliza a formação e tende a reproduzir, ao longo do tempo, profissionais com experiências formativas muito distintas.
Os dados apontam um caminho claro. Melhorar a formação médica não passa apenas por mudanças curriculares. Exige enfrentar o núcleo do problema, que é a fragilidade dos cenários de prática em parte das escolas.
Para essas instituições, fortalecer hospitais de ensino, estruturar a preceptoria e garantir integração real com o Sistema Único de Saúde não é medida acessória. É condição para avançar.
A experiência da ABRAHUE reforça esse diagnóstico. A qualificação dos hospitais de ensino, associada a financiamento adequado e valorização da atividade assistencial e formadora, é parte essencial de qualquer estratégia consistente para melhorar a formação em saúde.
O Enamed não é apenas uma prova. É um retrato do sistema. E a lição é direta, onde há prática qualificada, a formação melhora. Onde ela é precária, os limites aparecem.
Ignorar esse diagnóstico é manter um problema já conhecido. Enfrentá-lo exige reconhecer o óbvio que por vezes se evita, sem prática, não há formação médica.
A notícia Enamed: sem prática, não há formação médica apareceu antes em ÉTopSaber Notícias.








