Fim do tarifaço dá nova chance à chapa Lula-Alckmin junto ao eleitor centrista

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Donald Trump não pode tudo: na última sexta-feira (20/2), a Suprema Corte dos EUA decidiu que o aumento de tarifas indiscriminado pela Casa Branca é ilegal. Com isso, o tarifaço que teve início em março de 2025 foi suspenso.

Trump reagiu impondo tarifas de 15% a todos os parceiros comerciais. É o máximo permitido pela Seção 122 da Lei de Comércio de 1974, que permite ao presidente americano aumentar taxas de importação por até 150 dias em caráter emergencial, para corrigir desequilíbrios comerciais. Relatório da Global Trade Watch indica que o Brasil terá uma redução de 13,6 pontos percentuais nas tarifas médias, sendo assim o maior ganhador da decisão judicial.

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Pode o bolsonarismo ainda jogar a culpa do tarifaço do qual o Brasil foi vítima sobre Lula, ainda que tenha sido Eduardo Bolsonaro, ex-deputado federal que se encontra foragido nos EUA, o responsável por levar a Casa Branca a nos taxar em 50%?

Outras investigações seguem contra o Brasil no âmbito da seção 301, inclusive a concorrência imposta pelo Pix às bandeiras americanas de cartão de crédito. Porém, Lula pode faturar com o fim do tarifaço, mostrando ao eleitor centrista que está indeciso ou ameaça abandonar o presidente em sua busca por um quarto mandato que estava certo desde o início: o tarifaço era um despautério, não cabendo qualquer concessão a Trump.

A literatura sobre comércio internacional e eleições sugere que líderes buscam a assinatura de acordos comerciais para demostrar ao eleitorado competência. Liberalismo econômico, pelo menos do ponto de vista abstrato, soa como música aos ouvidos de eleitores centristas, localizados em grandes centros urbanos. Assim, na ausência de um mea culpa sobre o tarifaço por parte da direita, que se alinhou em peso ao bolsonarismo para criticar Lula, tais eleitores tendem a ser suscetíveis ao efeito rally ‘round the flag e votarem a favor de uma postura nacionalista, algo que a direita — hoje alinhada a Trump — não tem como oferecer.

Soberania e desenvolvimento são palavras que não constam do dicionário de membros de PL e Novo, partidos de Flávio Bolsonaro (senador pelo Rio) e Romeu Zema (governador de Minas Gerais), os quais devem ser respectivamente candidatos à presidente e vice-presidente na chapa mais competitiva da direita. Devem estar torcendo para que Trump vire as costas para Lula, ainda que ambos os líderes tenham um encontro previsto para o mês que vem para alinhar de uma vez por todas os ponteiros da relação bilateral Brasil-EUA.

Ainda que Trump volte a sancionar a economia brasileira, Lula terá o que apresentar ao eleitor preocupado com questões internacionais. Além da conclusão das negociações do acordo Mercosul-União Europeia, o presidente brasileiro pode argumentar que se aproximou da Índia e da Coreia do Sul, esta última bastante queridinha entre segmentos jovens que curtem ídolos do K-pop.

O Brasil assinou neste mês acordos com ambos os países sobre metais críticos, o que aumenta nosso poder de barganha perante Washington, que ambiciona acessar nossas reservas – estas só perdem para as chinesas.

Enquanto o atual governo exibe competência diplomática para abrir novos mercados para o Brasil — inclusive para produtos do agronegócio, setor que ao menos há 20 anos é um aliado incondicional da direita brasileira, seja ela moderada ou extrema —, a oposição fica no silêncio sepulcral que é revelador de sua visão de mundo acerca do Brasil: ir a reboque das loucuras da extrema direita internacional capitaneada por Trump.

Não haverá narrativa que associe Lula ao tarifaço (agora morto e enterrado) que se sustente exceto para aqueles eleitores mais fanáticos na polarização entre centro-esquerda democrática e extrema direita com pendores autoritários.

A única chance de Lula perder os centristas preocupados com economia é se a muito provável chapa Flávio e Zema conseguir emplacar o discurso de que o governo federal é o grande responsável pelas falhas de segurança pública e as contas públicas correm risco com um eventual governo Lula 4.

Da parte do presidente, será um erro brutal depois do fim do tarifaço dispensar o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), que na capacidade de ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços acabou por ter um papel fundamental nas negociações que adicionaram mais produtos às exceções em novembro.

Alckmin deve continuar como companheiro de chapa de Lula em reconhecimento à sua lealdade e conhecimento acumulado nos bastidores da construção de pontes que romperam já antes da decisão da Suprema Corte dos EUA o protecionismo trumpista. Em resposta às críticas feitas pela Acadêmicos de Niterói a grupos conservadores que apoiam o bolsonarismo na sociedade durante o desfile que homenageou Lula no carnaval carioca, o presidente disse que não é carnavalesco.

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Se seu faro político não é mais o mesmo, para evitar um rebaixamento tal como o da escola de samba e perder a última eleição de sua vida, Lula poderia encontrar amparo nas lições que sua mãe, dona Lindu, teria lhe legado. Mais que o cálculo político meramente utilitário, pensando apenas em tempo de rádio e TV (que na era das redes sociais são recursos discutíveis) e que podem ser assegurados caso Alckmin seja dispensado por algum nome do PSD ou do MDB, Lula tem a dignidade a preservar.

Se o golpe de Bolsonaro tivesse sido bem-sucedido, os atuais moradores do Alvorada e do Jaburu teriam sido assassinados junto com Alexandre de Moraes. São demais os perigos da vida para mexer em time que segue ganhando em situação tão adversa.

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