
Em nome do pai, o filho se candidata. Vamos receber de brinde em caso de vitória o espírito de porco que zombava de mortos na pandemia enquanto desacreditava a ciência e batia continência para forças estrangeiras. A eleição de Jair Bolsonaro em 2018 fazia sentido à luz da justa revolta desencadeada pela miséria econômica legada por Dilma Rousseff (PT) e a percepção de corrupção generalizada legada pelo lavajatismo. O cavalo passou encilhado, e o capitão aproveitou-se das circunstâncias apoiado por uma elite cínica.
Que a elite siga prenhe de cinismo é algo esperado. O eleitorado comprar novamente um Bolsonaro na urna para exercer o cargo máximo da República é masoquismo. Ainda que venda moderação, tal como ocorreu neste domingo (1º/3) em evento que reuniu mais de 20 mil pessoas na avenida Paulista, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) representa mais perigo que seu pai à democracia brasileira.
Por trás da aparência equilibrada, há uma disposição em autocratizar o país por meio de um desmonte institucional discreto, sem o confronto atabalhoado empreendido pelo capitão desde sua posse até a tentativa de se manter no poder, o que incluía o assassinato dos integrantes da chapa vencedora em 2022, o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o vice-presidente Geraldo Alckmin, além do ministro do STF Alexandre de Moraes.
Sai o punhal verde-e-amarelo (nome da operação de “neutralização” do trio supracitado) e entra o harakiri da mesma cor. A disposição em incorrer no erro ou achar que, uma vez eleita, a extrema direita vai se moderar é ingenuidade ou má-fé dos que se dizem moderados. Se a intenção é encerrar de vez a Nova República e, como já expliquei neste espaço, a definição de nação construída desde os anos 1930, o bolsonarismo é a espada ideal para partir a ordem constitucional de 1988.
Evitando ataques ao Supremo, Flávio, porém, chegou ao ponto de dizer que seu pai vai subir a rampa do Planalto ao seu lado em 6 de janeiro de 2027, data da próxima posse presidencial. Ou seja, em caso de vitória em outubro próximo, o bolsonarismo já considera garantida a instalação de um ambiente jurídico-político favorável à revisão das penas impostas a Jair e demais golpistas.
Não se trata de novidade na boca daquele que, além de Lula, é a outra pessoa efetivamente com chances de ocupar o Planalto no período 2027-2031. Em junho de 2025, o senador já tinha falado com todas as letras em entrevista à Folha de S.Paulo que o candidato de Bolsonaro em 2026 teria de garantir que o STF não derrubasse um eventual indulto ao pai, ainda que a força tivesse que ser usada contra o tribunal.
O papel de candidato preposto de um presidiário não é inédito. Foi exercido com esmero por Fernando Haddad em 2018 em nome de Lula, então cumprindo pena no contexto de sua condenação, posteriormente anulada, no âmbito da Operação Lava Jato. Muito se falava à época que Haddad, caso eleito, indultaria Lula. Em caso de constatação do STF a essa ação, porém, não me parece que a centro-esquerda por ora no poder teria ignorado a suprema corte, como Flávio já deixou claro que o bolsonarismo fará caso ele seja candidato desse grupo político.
Na coluna pregressa a esta, intitulada Entendendo Bolsonaro, veiculada pelo UOL, publiquei no começo de 2022 um artigo não mais disponível online no qual defendia que o eleitor enfrentaria na eleição presidencial daquele ano um dilema análogo àquele que a França teve em 2002, no segundo turno entre o centro-direitista Jacques Chirac e o então líder da extrema direita, Jean-Marie Le Pen.
Sob o mote “votez pour l’escroc, pas pour le facho” (numa tradução livre, vote no escroque, mas não o fascista), a sociedade civil francesa cerrou fileiras em torno de Chirac, que foi reeleito com mais de 80% dos votos. Tal cenário é impossível contra o bolsonarismo no Brasil atual, que se tornou um movimento social orgânico, que expressa as posições de parcela considerável da sociedade.
Nesse caso, a autocratização pretendida pelo pai, o filho e espíritos de porco não são um mero detalhe para apoiadores ostensivos ou enrustidos. Esse é justamente o objetivo de parte significativa dos que apoiam hoje a extrema direita. Não passemos pano para o eleitor que vota no bolsonarismo exatamente por ele desafiar o atual contrato sócio-político vigente no país. Depois de 700 mil mortos na pandemia, ele sabe quem está elegendo e as consequências de suas escolhas.
Debates em Ciência Política apontam para a força da democracia residir no fato de ela ser autocorretiva. Ao tolerar os intolerantes na política e na sociedade, abre-se a porta para que o pior regime exceto todos os outros seja também autodestrutivo. Para quem tem medo do terrorismo em época de conflitos como a guerra dos EUA e Israel contra o Irã, cabe um recado: os homens e mulheres bomba estão perto de nós e vão digitar 22 para presidente na urna eletrônica.
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