
A Amazônia brasileira enfrenta um paradoxo perigoso. Enquanto avançamos na redução das taxas de desmatamento, os incêndios florestais continuam a desafiar a resiliência do bioma e a capacidade de resposta dos estados.
Em 2024, fomos testemunhas de um cenário atípico com a floresta queimando mais do que as áreas de pasto e com a Amazônia concentrando mais de 50% dos focos de calor do país. Esse fenômeno não é fruto do acaso, mas o reflexo direto de um componente climático que exige uma mudança de paradigma na nossa governança: a transição definitiva da cultura do combate para a cultura da prevenção estratégica.
O desafio dos extremos climáticos
O cenário atual é marcado pela intensificação de extremos. Nos últimos 15 anos, a Amazônia viveu as maiores cheias e as secas mais severas da história recente, como a estiagem de 2023/2024. Mudanças climáticas e degradação florestal tornaram a floresta mais inflamável, uma vez que as temperaturas elevadas reduzem a umidade do ar e transformam em combustível acumulado a vegetação em combustível acumulado que naturalmente deveria ser uma barreira ao fogo.
Para os tomadores de decisão e para a sociedade, o alerta é constante. Não estamos mais lidando com ciclos previsíveis, mas com uma “nova normalidade” que exige ações que vão além do combate emergencial. A mitigação e a adaptação climática tornaram-se pilares de sobrevivência para as populações locais e para a manutenção dos serviços ecossistêmicos que regulam as chuvas em todo o continente.
Gestão integrada como estratégia de defesa
O planejamento territorial e a gestão integrada apontam caminhos para garantir menor impacto nas próximas temporadas. É fundamental compreender que o fogo na Amazônia, um bioma sensível, difere da ocorrência em savanas adaptadas.
Dada a dimensão do bioma, a região amazônica tem diferentes “temporadas do fogo”, sendo a mais conhecida a que marca os meses de maio a setembro, que comumente apresentam menos chuvas. Por isso, a hora de prevenir o fogo na maior parte da Amazônia é entre fevereiro, março e abril.
Nesse contexto, a sanção da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (Lei 14.944/2024) surge como uma resposta necessária do Brasil, pois o conceito de MIF (Manejo Integrado do Fogo) fundamenta-se em um modelo de governança que integra diversos fatores para uma gestão proativa.
Essa lei não apenas disciplina o uso do fogo, mas promove a articulação interinstitucional e valoriza o manejo planejado para reduzir a severidade dos grandes incêndios, ou seja, traz instrumentos e conceitos para o uso adaptativo do fogo de maneira planejada, segura, ajustada às necessidades ecológicas da paisagem e aos modos de vida das comunidades, visando reduzir incêndios florestais severos e aumentar a resiliência climática.
Assim, a Política Nacional de MIF substitui a visão proibitiva do fogo, que muitas vezes contribuiu para o acúmulo de material combustível e para incêndios de maior magnitude, por uma abordagem de responsabilidade compartilhada entre União, Estados e comunidades.
O papel dos estados
Os esforços estaduais em 2024 e as projeções para 2026 mostram iniciativas que merecem ser valorizadas. O fortalecimento de programas de prevenção e o investimento em infraestruturas, como o reforço de equipamentos e a contratação antecipada de brigadistas, demonstram que a gestão estratégica pode, sim, apresentar resultados concretos.
Acre e Pará, por exemplo, registraram reduções significativas nos focos de incêndio em períodos críticos de 2025 por meio de decretos de emergência ambiental preventiva, o que ilustra o poder da ação coordenada.
Esse modelo de atuação com foco em gestão do fogo, conforme diagnóstico elaborado pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), precisa ser escalado para toda a Amazônia Legal, integrando monitoramento em tempo real, inteligência investigativa contra o fogo criminoso e o apoio às brigadas comunitárias e voluntárias, que promovem o uso ordenado e responsável do fogo, baseado em técnicas de manejo integrado, e garantem uma primeira resposta aos focos de incêndio, impedindo que pequenas ocorrências se transformem em grandes desastres ambientais.
Portanto, os dados confirmam que o combate reativo é o caminho mais caro e menos eficaz para a Amazônia. A ciência mostra que em um cenário de extremos climáticos, a resiliência do bioma depende da antecipação operacional. O fortalecimento das políticas públicas preventivas e a institucionalização do MIF não são apenas escolhas ambientais, mas estratégias de segurança socioeconômica e climática.
Ao priorizar o planejamento e o suporte às brigadas comunitárias e voluntárias, os Estados reduzem drasticamente o custo por hectare protegido e asseguram a estabilidade dos serviços ecossistêmicos essenciais para a economia e para a vida.
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