Identidade, comércio e poder: o Brasil na disputa do século 21

​ 

O sistema internacional atravessa uma inflexão histórica. Durante décadas, prevaleceu a expectativa de convergência sob a primazia americana e a universalização liberal. Hoje, essa promessa dá sinais de erosão. O mundo caminha menos para a homogeneização e mais para a pluralização.

A disputa contemporânea não é apenas material. Não se resume a PIB, orçamento militar ou capacidade tecnológica. Trata-se de legitimidade, identidade e narrativa. Quem define o que é desenvolvimento, democracia e soberania disputa a arquitetura normativa do sistema.

Conheça o JOTA PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transparência e previsibilidade para empresas

O cientista político norte-americano Alexander Wendt, referência do construtivismo nas relações internacionais, já advertia que interesses derivam de identidades socialmente construídas. Estados agem conforme a forma como se percebem e como desejam ser percebidos.

Da mesma maneira, Joseph Nye, professor da Universidade Harvard e formulador do conceito de soft power, demonstrou que o poder também se constrói pela atração, não apenas pela coerção. Soft power depende de coerência interna, credibilidade institucional e vitalidade cultural.

A China compreendeu essa dimensão identitária. Investe em educação estratégica, presença acadêmica, tecnologia própria e diplomacia cultural. Constrói uma narrativa de civilização milenar e rejuvenescimento nacional.

A Coreia do Sul transformou cultura em política de Estado. O êxito do K-pop, do cinema e das séries globais não é casual, é planejado.

Os Estados Unidos enfrentam tensões internas que repercutem na reputação externa. Identidade é reputação, e reputação influencia poder. A competição sistêmica tornou-se também cultural e civilizacional.

Nesse cenário, o Brasil não pode ser espectador. Possuímos diversidade singular, criatividade reconhecida e capital simbólico expressivo. Somos potência ambiental, agrícola, energética e cultural. Temos vocação para o diálogo e tradição diplomática respeitada.

Além disso, registramos crescimento consistente no comércio global. O Brasil ampliou mercados, diversificou destinos e alcançou aumento expressivo das exportações nos últimos anos. Expandimos presença na Ásia, no Oriente Médio e na África. Fortalecemos cadeias agroindustriais, ampliamos a exportação de proteínas, grãos, minerais e produtos de maior valor agregado. Também avançamos em serviços, tecnologia e economia criativa.

Esse desempenho resulta de estratégia comercial ativa, abertura de novos mercados e fortalecimento de parcerias. Quanto maior a capilaridade exportadora, maior nossa relevância sistêmica.

Contudo, cultura sem estratégia não gera protagonismo. É preciso estruturar um projeto identitário no plano internacional. Protagonismo não é retórica, é construção institucional e narrativa coerente.

O presidente Lula tem reiterado que o Brasil deseja ser sujeito ativo na reorganização da ordem global. Sua ênfase na integração sul-americana, no fortalecimento do Sul Global e na reforma da governança internacional aponta nessa direção. Ao defender multilateralismo, combate à fome e transição energética justa, Lula recoloca o Brasil no centro dos grandes debates.

O vice-presidente Geraldo Alckmin, ao liderar a agenda de desenvolvimento, indústria e comércio, reforça a dimensão produtiva desse protagonismo. Não há identidade internacional consistente sem base econômica sólida. Reindustrialização, inovação tecnológica e inserção qualificada nas cadeias globais são instrumentos de poder.

Protagonismo é oportunidade porque o mundo busca referências confiáveis. Busca sociedades abertas ao diálogo, capazes de mediar conflitos e oferecer soluções. O Brasil pode ser ponte entre Norte e Sul, entre tradição e inovação, entre crescimento e sustentabilidade.

Para isso, precisamos alinhar discurso e prática. Investir em educação, ciência e formação de elites globais. Internacionalizar universidades, valorizar nossa produção cultural e consolidar uma marca-país coerente. Transformar diversidade em ativo estratégico.

Assine gratuitamente a newsletter Últimas Notícias do JOTA e receba as principais notícias jurídicas e políticas do dia no seu email

A nova ordem não será definida apenas por quem acumula força, mas por quem inspira confiança. O Brasil tem condições de oferecer modelo de convivência plural, democracia vibrante e compromisso ambiental. Se articularmos identidade, desenvolvimento e estratégia comercial, deixaremos de reagir ao mundo e passaremos a influenciar sua configuração.

Protagonismo, portanto, não é ambição desmedida. É leitura adequada do tempo histórico. Em uma ordem em disputa, identidade bem construída converte-se em poder. E poder, quando orientado por valores, comércio dinâmico e visão de futuro, transforma-se em oportunidade.

Fonte

O post Identidade, comércio e poder: o Brasil na disputa do século 21 apareceu primeiro em ÉTopSaber Notícias.

   

Partilhe o seu amor

Leave a Reply