Montagem da chapa à reeleição é o verdadeiro teste de Tarcísio

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Com a consolidação de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como principal oponente até agora de Lula (PT) na disputa pela Presidência, políticos e analistas passaram a fazer a autópsia da pré-candidatura de Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) ao Planalto, aquela que existiu sem ter existido. O mais enfático, nesse sentido, foi o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que, mais ou menos, sintetizou as opiniões dizendo o seguinte: faltou atitude ao governador de São Paulo, que se acostumou a “jogar parado”.

Engenheiro e militar, Tarcísio talvez tenha mesmo padecido de uma certa falta do chamado “traquejo político” na disputa pelo direito de ser o candidato de Jair Bolsonaro ao Planalto. O governador, no entanto, é notadamente um cidadão inteligente, formado pelo Instituto Militar de Engenharia (IME), prestigiada instituição de ensino vinculada ao Exército. Muito provavelmente, ele absorveu conhecimentos desse revés.

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No final do ano passado, publiquei no JOTA um texto analisando as lições que ex-governadores de São Paulo legaram para Tarcísio na seara estritamente política quando o assunto era Presidência. Desde então, o atual ocupante do Palácio dos Bandeirantes parece ter se inspirado em alguns dos casos citados, principalmente nos exemplos de João Doria (é desgastante romper com Jair Bolsonaro para disputar o Planalto) e José Serra (trocar uma reeleição garantida pelo tudo ou nada é muito arriscado).

No entanto, se mantiver a disposição de concorrer ao mesmo cargo, o governador estará diante de novos desafios, agora relacionados à costura de sua chapa à reeleição, que envolve a manutenção da aliança fundamental na vitória do prefeito Ricardo Nunes (MDB) em 2024. Segundo aliados e interlocutores de Tarcísio, a montagem de seu time eleitoral neste ano é um verdadeiro teste de fogo para o político novato.

Na disputa pela Prefeitura de São Paulo, aliados de Lula (PT) tentaram repetir na capital paulista o discurso de que Guilherme Boulos (PSOL) lideraria uma “frente ampla” contra as forças do bolsonarismo, a exemplo do que o presidente havia feito em 2022 contra Bolsonaro, apoiador da reeleição do prefeito. A estratégia da esquerda não colou.

Nunes repisou ao longo da campanha que a “frente ampla” estava, na verdade, a seu lado, afinal, ele contava com o apoio de PL, PSD, PP, União Brasil, Solidariedade e Republicanos. Tarcísio foi decisivo nesse processo, assim como em toda a trajetória que reconduziu o prefeito ao cargo em outubro de 2024, e acabou contribuindo com o isolamento da candidatura de Boulos e, consequentemente, de Lula na capital.

Neste novo ano eleitoral, porém, Tarcísio se depara com um problema que, de certa maneira, ele próprio ajudou a fomentar: o fortalecimento do PSD, turbinado pela adesão de vários prefeitos e governadores ao partido; do MDB, empoderado pelo comando conquistado no voto da maior cidade do país; e do PL, novamente com um presidenciável competitivo na disputa pelo Planalto, no caso, Flávio Bolsonaro.

É uma questão simples de aritmética. Tarcísio tem três vagas para negociar (sua vice e duas de candidatos ao Senado) com quatro forças partidárias: MDB, PL, PSD e União Brasil-PP (que formaram uma federação). Nesse jogo das cadeiras, alguém terá de ceder “espontaneamente” ou acabará fora da chapa principal por força da mão do governador. Neste momento, o cenário é de enfrentamento, especialmente na disputa pelo posto de vice.

O PSD ocupa o cargo de vice-governador com Felício Ramuth e só aceita abrir mão da vaga se for para ela ser ocupada por Gilberto Kassab, presidente nacional do partido e secretário estadual de Governo. No entorno de Tarcísio, tem muita gente buzinando no ouvido do chefe que o melhor a fazer é escantear Kassab e seus aliados, ainda que essa seja uma aposta arriscada para este ano e para 2030, quando o governador deverá tentar o Planalto.

Aliás, a possibilidade de ocupar o cargo de governador de São Paulo em 2030, caso Tarcísio se desincompatibilize para disputar a Presidência, é o grande atrativo da vice a partir de 2027. Esse seria o sonho dourado de Kassab, por exemplo. Bolsonaristas mais radicais, porém, costumam desdenhar desse projeto como se ele fosse algum tipo de “traição” ou “oportunismo”, o que não faz sentido.  

O PL é hoje o principal cotado para ocupar a vice se o PSD for mesmo desalojado, o que ainda não está decidido. Tarcísio tem simpatia por André do Prado, presidente da Alesp e partidário de Valdemar Costa Neto, líder máximo do partido. O cobiçado MDB, de seu lado, sonha ver Baleia Rossi na disputa pelo Senado no estado, que já tem Guilherme Derrite (PP), pela federação União Brasil-PP, como um dos candidatos.

Há ainda a possibilidade, embora remota, de Tarcísio se transferir para o PL, sonho antigo de Valdemar. Mas, neste caso, o que fazer com o Republicanos? Simplesmente virar as costas para o partido que até agora abrigou o governador?

Como se vê, não será uma questão fácil de ser resolvida e exigirá de Tarcísio uma habilidade de equilibrista. Qualquer passo em falso que desarticule a frente consolidada em 2024 abrirá flancos para a oposição, liderada pelo PT de Lula, avançar sobre eventuais descontentes.

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Portanto, se quiser voltar às lições deixadas por seus antecessores no Bandeirantes, Tarcísio deverá olhar para o Geraldo Alckmin de 2010, então no PSDB, que conseguiu empacotar em uma aliança 14 partidos, entre eles o PSB e o  DEM (no qual ainda estava Kassab), e venceu no primeiro turno. Agora é hora de o engenheiro mostrar que nas contas da política muitas vezes quatro precisam se acomodar onde cabem apenas três.

Bola dentro

O deputado federal Fernando Marangoni (União Brasil-SP) protocolou projeto de lei que, se aprovado e sancionado, permitirá ao Brasil investigar e punir casos de racismo cometidos contra brasileiros no exterior. Entre as motivações que fomentaram a iniciativa está o mais recente caso envolvendo o astro do Real Madrid e da seleção brasileira Vini Jr., vítima de ofensas proferidas por um colega de profissão no duelo recente com o Benfica.

Fonte

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