O futuro que queremos é feito pelo que fazemos hoje

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Pensar que estamos mais perto de 2050 do que de 2000 pode dar uma sensação estranha. A velocidade das transformações que estamos vivendo em sociedade, além das tecnológicas, desafia nossa capacidade de planejamento, adaptação e até compreensão do que vem pela frente. Vamos, então, tornar o exercício mais concreto? Em vez de olharmos para 2050, vamos pensar em 2030. Faltam menos de cinco anos.

O futuro do trabalho, da economia e das organizações já não depende apenas de avanços tecnológicos, mas de como pessoas, empresas e instituições respondem a eles. Inteligência artificial deixou de ser promessa e passou a ser infraestrutura produtiva. A questão não é mais se haverá transformação, mas qual transformação.

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Um estudo recente do Fórum Econômico Mundial (World Economic Forum – WEF) propõe quatro cenários possíveis para o mundo do trabalho em 2030, construídos a partir de duas variáveis centrais: a velocidade do avanço da IA e o grau de preparo das pessoas para utilizá-la.

Ao cruzar esses fatores, o WEF desenhou  algumas possibilidades de futuros e simultaneamente possíveis.Porém, mais do que previsões, esses cenários podem funcionar como um instrumento para reflexão estratégica. Eles nos convidam a perguntar: onde estamos hoje e para qual futuro estamos caminhando?

Futuros possíveis e coexistentes

Os quatro cenários não são excludentes. Elementos de todos eles já coexistem em diferentes setores, organizações e realidades econômicas.

1) Progresso acelerado

Avanços exponenciais em inteligência artificial transformam indústrias, modelos de negócio e fluxos de trabalho. A produtividade cresce rapidamente e novas profissões surgem na mesma velocidade em que outras desaparecem. É só pensarmos na figura do profissional de Legal Ops, existe há menos de 10 anos no nosso país.

Profissionais deixam de executar tarefas e passam a supervisionar sistemas inteligentes. Essa é a tendência de transformação global, para quase todas as funções do mercado de trabalho.

O desafio deixa de ser tecnológico e passa a ser institucional, mas o ponto negativo é que regulação, governança e proteção social não acompanham o ritmo da mudança. O risco não é ficar para trás tecnologicamente, mas perder a capacidade de controle do impacto gerado com o uso da tecnologia.

2) Era da Substituição

A tecnologia avança mais rápido do que a capacidade de adaptação das pessoas. Empresas automatizam em larga escala, o desemprego aumenta e a economia se torna mais produtiva, porém socialmente instável. A inovação contínua, mas acompanhada por desigualdade, perda de confiança e pressão sobre instituições.

Nesse contexto, a eficiência econômica, sem adaptação humana, tende a gerar desequilíbrios sociais e produz riscos sistêmicos. Por isso, cada vez mais reforçamos o papel da Indústria 5.0 neste cenário que vivemos.

3) Economia potencializada pela IA

A Inteligência Artificial evolui gradualmente e a força de trabalho está preparada para utilizá-la. Em vez de substituição em massa, ocorre ampliação das capacidades humanas. Equipes híbridas (humano-máquina) tornam-se padrão, e organizações que investem em qualificação e governança tecnológica colhem ganhos sustentáveis.

O valor, então, passa a estar na integração entre inteligência humana e artificial. Assim como seria o papel de um Legal Ops orquestrando agentes e trazendo mais eficiência para o time. Suportando o trabalho do desafio de ‘mais por mesmo’ e não de ‘mais por menos’.

4) Progresso estagnado

A tecnologia avança, mas a falta de qualificação limita sua aplicação prática. Os ganhos de produtividade são irregulares, a competitividade se concentra em poucos agentes e aumenta a distância dos profissionais preparados para os não preparados.

A promessa da prosperidade tecnológica se transforma em frustração, pois a inovação existe, mas não gera mudanças reais.

Esses quatro cenários não descrevem apenas o futuro, eles revelam situações e decisões já do presente.

O verdadeiro eixo da transformação: pessoas ou tecnologia?

O aspecto mais provocativo dessas projeções é que o fator decisivo não é a tecnologia em si, mas a capacidade humana de adaptação.

A mesma premissa vem à tona a partir da provocação do Fórum Econômico Mundial e isso é feito, inclusive, de maneira abrangente, aplicável à todas as áreas e não apenas ao jurídico. (Percebeu que estamos falando pouco da nossa área aqui, né? Não é à toa.)

Isso porque, o avanço da tecnologia é relativamente previsível, apesar da velocidade acelerada. O que permanece incerto é o ritmo de desenvolvimento de competências, modelos educacionais, cultura organizacional e estruturas institucionais.

O futuro do trabalho será definido menos por algoritmos e mais por decisões estratégicas sobre pessoas.

Empresas que tratam tecnologia como investimento isolado (sem a parte cultural, reforçada por uma cultura de Change Management) tendem a enfrentar os riscos dos cenários mais instáveis. Já organizações que alinham tecnologia, qualificação e governança aumentam suas chances de operar em ambientes de colaboração produtiva entre humanos e sistemas inteligentes.

O mesmo vale para profissionais. A vantagem competitiva deixa de ser conhecimento estático e passa a ser capacidade contínua de adaptação.

E o Jurídico brasileiro, onde está nesse mapa?

Os quatro cenários descritos também já são vistos no Jurídico brasileiro.

Há empresas e escritórios que operam próximos ao cenário de progresso acelerado, incorporando automação, análise preditiva, Inteligência Artificial Generativa e novos modelos operacionais. Em outros contextos, porém, a tecnologia ainda é vista como ferramenta acessória, sem transformação estrutural de processos, competências ou modelos de gestão.

O risco mais relevante não é a substituição de profissionais, mas a ampliação da distância entre organizações que conseguem integrar tecnologia e aquelas que permanecem presas a modelos tradicionais.

Para o corporativo, o debate envolve temas que vão além da eficiência operacional: governança de sistemas automatizados, responsabilidade por decisões algorítmicas, proteção de dados, gestão de riscos tecnológicos e redefinição do papel estratégico do advogado nas organizações.

A transformação tecnológica do Direito é, portanto, também uma transformação institucional.

A pergunta inevitável: onde você está e onde quer chegar?

Pensar em 2030 não é exercício de futurologia.

É exercício de posicionamento.

  • Sua organização investe apenas em tecnologia ou também em Gestão da Mudança e desenvolvimento humano?
  • Seu modelo de trabalho amplia capacidades ou apenas substitui atividades operacionais?
  • Sua área está se preparando para governar e liderar o uso da Inteligência Artificial ou apenas reagindo a ela?

Essas escolhas determinam qual cenário se tornará realidade.

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O futuro não será resultado inevitável da inovação tecnológica, mas consequência das decisões tomadas agora. O horizonte de 2030 não é um destino fixo, é um espaço de disputa entre diferentes caminhos possíveis.

A pergunta que permanece é simples e pode ser desconfortável: qual desses futuros estamos construindo hoje e em qual deles queremos viver?

Fonte

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