
No passado, as teorias econômicas, alicerçadas numa percepção do indivíduo a partir da figura do homo economicus, se concentravam em um sujeito racional e autocentrado, movido pelo desejo de maximizar sua utilidade pessoal, guiado por decisões lógicas e calculistas em mercados competitivos. O homo economicus representava um arquétipo de autonomia, onde a liberdade de escolha era a essência da interação econômica.
No entanto, em tempos de profundas transformações digitais e tecnológicas, assistimos ao nascimento de uma nova fronteira do humanismo: o indivíduo agora não é apenas um agente econômico isolado, mas sim uma engrenagem orgânica que gera e compartilha dados que podem ser quantificados, analisados e, sobretudo, precificados.
A revolução digital transformou o ser humano em uma unidade econômica complexa, não mais definida apenas por seu consumo ou trabalho, mas também pela imensa quantidade de informações que produz diariamente. Cada clique, cada visualização de vídeo, cada acesso a um site, não é mais apenas uma atividade pessoal ou de lazer, mas uma transação que gera valor econômico.
A natureza dessa transação, no entanto, não é visível ou palpável, pois o valor criado está intrinsecamente ligado aos dados que o indivíduo gera. Assim, a economia não está mais apenas centrada em bens tangíveis ou serviços, mas na invisibilidade informacional que é convertida em capital.
Antes do computador, a riqueza era medida pela posse de terras, bens ou dinheiro, recursos tangíveis que se podiam armazenar e negociar. Nos dias atuais, grande parte da riqueza é representada por dados inseridos em sistemas eletrônicos, que representam, de forma abstrata, a presença do capital.
Não bastasse a existência de grande parte dos ativos ser representada por dados, mais recentemente, com a disseminação das redes sociais, temos que os próprios dados, além de uma forma de se armazenar ativos, passaram a ser geradores intrínsecos de riqueza, a partir de sua forma de alocação. Sob essa ótica, plataformas digitais como Facebook, Google, YouTube e Amazon não são apenas mercados de bens e serviços, elas são também mercados de dados.
Esse novo tipo de riqueza não só reflete a capacidade das empresas em gerar valor, mas também altera a própria natureza do mercado. O mercado agora é, em grande parte, um ecossistema de dados. E o indivíduo, enquanto consumidor e gerador de interações eletrônicas, está no centro dessa troca, sendo simultaneamente fonte e sujeito de transações econômicas invisíveis.
O homo economicus de outrora, aquele que tomava decisões racionais baseadas em suas necessidades e desejos, agora cede espaço a um novo modelo. O indivíduo moderno não é apenas um consumidor racional de produtos e serviços, mas um produtor de dados que alimenta o próprio mercado. A “mercantilização do olhar”, conceito discutido por filósofos como Michel Foucault, ganha uma profunda relevância no mundo digital. Não se trata mais apenas da visibilidade do indivíduo, mas de sua presença como uma unidade de valor econômica gerada a partir de sua interação com o meio digital.
Nesse contexto, a contribuição da Escola Austríaca é fundamental para entender esse fenômeno. Para Friedrich Hayek, o mercado é um sistema complexo que não pode ser planejado ou compreendido a partir de uma perspectiva centralizada. Ele descreve o mercado como uma ordem espontânea, um processo de coordenação do conhecimento disperso.
Nesse novo cenário, os dados produzidos pelo indivíduo se tornam uma forma de conhecimento que é utilizado de forma algorítmica para coordenar interações econômicas em plataformas digitais. Essa interação entre consumidores e plataformas cria uma ordem que, embora invisível, tem uma influência significativa na economia global.
Essa integração entre o ser humano e o mercado de dados levanta questões profundas sobre privacidade, liberdade e autonomia. O homo economicus de hoje já não se limita às fronteiras de mercados físicos e tangíveis. Em um mundo cada vez mais conectado e interdependente, o indivíduo agora opera como parte do próprio mercado. O que parecia ser apenas uma consequência de nossa vida cotidiana, o simples ato de consumir informações, agora se revela como a chave para entender as novas dinâmicas econômicas. Estamos, sem dúvida, à beira de uma transformação radical em como entendemos e nos posicionamos no mundo econômico.
No entanto, a visão austríaca nos adverte para um desafio crescente: a perda de autonomia individual diante da centralização dos dados e do poder econômico nas mãos de grandes plataformas. Ludwig von Mises já apontava que o controle do mercado por um número restrito de agentes pode levar à diminuição da liberdade econômica.
As plataformas que dominam o mercado de dados, ao acumularem informações dos indivíduos, não apenas coletam valor, mas também modelam a própria natureza das decisões econômicas desses indivíduos, colocando-os em um espaço de constante vigilância e manipulação.
Estamos diante de uma transformação radical na maneira de entender o papel do indivíduo na economia, onde o simples ato de consumir informações se torna uma chave para a dinâmica do próprio mercado global.
O post O mercado invisível: o novo homo economicus e a economia de dados na era digital apareceu primeiro em ÉTopSaber Notícias.






