Os perigos do colunismo pró-Supremo

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O desenrolar do escândalo do Banco Master – e com ele o possível envolvimento de uma parcela crescente do Supremo Tribunal Federal – fez com que um setor do debate público tivesse que trabalhar com ainda mais afinco: o colunismo pró-Supremo.

Marcado por uma atuação sem grande compromisso ético, o colunismo pró-Supremo tem sido incansável na tentativa de defender alguns ministros do STF não só de ataques liberticidas, mas de qualquer crítica democrática e republicana que deve ser feita àqueles que ocupam instituições públicas.

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Por colunismo pró-Supremo, não me refiro à defesa legítima do tribunal contra ataques autoritários, nem à discordância honesta diante de críticas pontuais a decisões ou ministros. Falo, na verdade, de um tipo de intervenção pública estratégica, praticada por advogados, juristas e até mesmo jornalistas, que funciona como linha auxiliar de proteção do poder – é o preço do acesso privilegiado, que costuma ser pago com juros emprestados do banco da dignidade.

O método já é conhecido. Surge uma notícia incômoda para o tribunal; entra em ação o colunismo. O conteúdo da notícia cede espaço às suas intenções. O que foi revelado também não tem importância, pois o colunismo pró-Supremo só tem olhos para quem teve a ousadia de fazer a revelação. E quando o que é descoberto é uma conduta grave? Nesse caso, a notícia ganha um falso contraste com os riscos de fortalecimento do iliberalismo ou do lavajatismo recém-ressurrecto.

Esse tipo de expediente é sorrateiro e nocivo ao debate público. Primeiro, porque se vale de argumentos artificiais para blindar o tribunal contra qualquer tipo de responsabilização. Segundo, porque corrompe o vocabulário público, instrumentalizando rótulos vazios e frases de efeito como forma de evitar questões difíceis. O produto desse comportamento é uma deferência seletiva, que só admite críticas que venham acompanhadas por rosas e um cartão de reconhecimento dos serviços prestados pela instituição.

No meio jurídico, o fenômeno ganha um colorido ainda mais grave. Há uma nova geração de juristas adaptáveis, cuja volubilidade das opiniões se adequa às necessidades de certos ministros. Alguns desses são particularmente mais perigosos, pois emprestam a reputação que construíram para dar verniz normativo ao absurdo. Essa disposição para embaralhar o debate público é só uma forma elegante de normalizar o que deveria causar escândalo.

Diante disso, a questão que naturalmente se impõe é: por que essas figuras continuam sendo ouvidas?

Não é por desconhecimento sobre suas intenções. O padrão é, há muito, bastante conhecido. Sabemos quem são e onde costumam publicar. Sabemos a quem servem e por que o fazem. O colunista pró-Supremo, que ontem denunciava os abusos judiciais, hoje os celebra com um vocabulário diferente. O jurista que construiu reputação criticando os erros e problemas do tribunal agora o trata como intocável. Tudo feito à luz do dia, diante de nossos olhos. E, ainda assim, funciona.

Mas por quê? Por que essas figuras continuam relevantes? A resposta, claro, é porque há quem as sustente. Veículos de imprensa que valorizam o acesso privilegiado ao tribunal. Escritórios de advocacia que precificam a proximidade com o poder. Universidades que confundem prestígio institucional com autoridade intelectual. O colunismo pró-Supremo não brota em solo infértil; ele é irrigado por uma economia de favores em que a moeda é a deferência e o retorno é a visibilidade.

Enfrentar o colunismo pró-Supremo também é uma tarefa desafiadora. Porque quando debatemos se uma crítica é “lavajatista” ou “bolsonarista”, estamos involuntariamente legitimando esse enquadramento. E isso faz parte do modus operandi dessas figuras. Elas não precisam vencer o debate; basta que disputem os argumentos feitos.

Por isso, a solução não é mais refutação. É o ostracismo intelectual.

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Não se trata de censura, nem de intolerância ao dissenso. Trata-se de reconhecer que há uma diferença entre o interlocutor que erra e o interlocutor que engana – e que conferir a ambos a mesma envergadura é uma forma de desonestidade intelectual.

Quem sistematicamente distorce o debate público de forma autointeressada não merece ser tratado como crítico, mas como agente de desinformação com diploma. A dignidade intelectual do debate exige que saibamos quem deve ser ouvido – e quem deve ser ignorado.

Relegar tais figuras à insignificância é, portanto, um ato de higiene republicana.

Fonte

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