
A política monetária do Banco Central (BC) e como ela afeta tanto a pessoa física quanto a jurídica é um tema que vem sendo discutido com frequência ao longo do governo Lula. A principal ferramenta desta política é a taxa básica de juros, também conhecida como Selic, que atualmente está em 14,75% ao ano.
O principal objetivo é manter a inflação dentro da meta de inflação (3%), valor estipulado pela Comissão Monetário Nacional (CMN), composto pelo Ministro da Fazenda, Ministro do Planejamento e Presidente do BC. Existe, contudo, um intervalo permitido de 1,5% para cima ou para baixo. O Índice de Preços ao Consumidor em 2025 terminou 2025 com alta acumulada de 4,26%, portanto dentro do intervalo da meta.
Os juros elevados encarecem a obtenção de crédito, fazendo com que a economia perca tração, o que culmina em uma diminuição da inflação devido ao declínio do consumo.
Como uma política monetária mais ou menos contracionista – hawkish ou dovish, em termos comumente utilizados pelo mercado – afeta tanto os empresários quanto o cidadão comum? Descubra ao longo deste artigo.
O que é política monetária e qual é seu objetivo no Brasil
Em um cenário ideal, política fiscal e política monetária deveriam conviver em harmonia. A política fiscal deveria ser parcimoniosa, de modo que não haja descontrole dos gastos públicos, enquanto a monetária seria mais vigilante do que ativa, por meio da observação da meta de inflação, do acesso ao crédito e do crescimento do PIB dentro do potencial do país.
Em caso de indícios de desequilíbrio fiscal ou superaquecimento da economia, porém, a autoridade monetária precisa agir, quase sempre apertando a taxa de juros, a taxa Selic. O efeito deste arrocho, contudo, não é imediato, podendo levar até oito meses para impactar a economia.
Quem conduz a política monetária no Brasil e como funciona o Copom
Dentro do BC, existe o Comitê de Política Monetária (Copom), que é composto pelo presidente do banco, Gabriel Galípolo, e mais oito diretores colegiados da instituição. As reuniões do comitê ocorrem a cada 45 dias, sendo que a primeira de 2026 ocorreu entre os dias 27 e 28 de janeiro. Nos raros casos de empate, o voto decisivo fica por conta do presidente.
O mercado tenta antever a decisão das reuniões no Boletim Focus – divulgado às segundas pelo BC–, observa as curvas de juros, contratos de DI futuro, além das declarações do banqueiro central e outros membros, que são acompanhadas pelos agentes econômicos.
“O diretor de Política Econômica exerce uma função mais técnica. Ele é responsável por organizar as análises sobre o desempenho da economia, como inflação e crescimento, e por coordenar as projeções usadas nas discussões do Copom. Essas informações servem de base para as decisões sobre o nível da taxa Selic”, explica o economista Nicolas Borsoi.
Tanto a nota divulgada logo após o término da reunião quanto a ata do Copom, que costuma ser publicada na semana seguinte, também são objetos de análise do mercado. O uso de um adjetivo específico em vez de outro pode até mesmo mudar o humor dos investidores. Ciente disso, Galípolo classifica a confecção de tais documentos como um trabalho quase que artesanal.
Principais instrumentos da política monetária no Brasil
O principal instrumento utilizado para controle da inflação é a Selic. Porém não é o único. Por meio da compra e venda de títulos públicos, com a finalidade de manter a taxa de juros no patamar determinado pelo Copom, as operações de mercado aberto ajustam a liquidez do sistema.
“Os depósitos compulsórios determinam a parcela dos recursos que os bancos devem recolher ao Banco Central, afetando a oferta de crédito. O redesconto consiste em empréstimos do Banco Central às instituições financeiras, utilizado em situações pontuais de necessidade de liquidez”, acrescenta o economista-chefe do Banco BMG, Flávio Serrano.
Durante a pandemia de Covid-19, a Selic caiu a 2%, ficando neste patamar entre as reuniões de 5 de agosto de 2020 e 17 de março de 2021. Esta política, com viés expansionista (dovish), foi executada em um momento emergencial, e visava baratear o crédito para impulsionar a economia que naquele momento se encontrava fragilizada.
Já o momento atual é um exemplo de política contracionista (hawkish). A Selic se encontrava em 15% desde a reunião de 18 de junho de 2025, permanecendo assim durante algumas reuniões. Este era o maior valor da taxa desde 31 de maio de 2006, quando chegou a 15,25%. Na última reunião do Copom, em 18 de março, a Selic foi reduzida em 0,25 ponto percentual para 14,75%.
Política monetária expansionista vs. contracionista: diferenças e aplicações
A política monetária expansionista tem como característica a redução da taxa básica de juros para injetar liquidez no mercado, o que tende a aquecer a economia. Já a política contracionista vai no caminho contrário, aumentando os juros e encarecendo o crédito. Isso torna o crédito mais inacessível, diminui os investimentos, e culmina em retração da economia.
Borsoi acredita que o mercado avalia principalmente se a decisão sobre os juros foi técnica, independente se o viés é contracionista ou expansionista.
Com os juros em alta, a renda fixa ganha força, enfraquecendo os investimentos em renda variável e a bolsa. Já o real, neste cenário, ganha força, impulsionado pela entrada de capital estrangeiro no país.
Já com os juros reduzidos, o crédito fica mais barato, os investimentos aumentam e a economia se aquece. O mercado de renda variável, portanto, fica mais atrativo.
Quais os efeitos da política monetária na economia e nos investimentos
Em linhas gerais, os juros elevados inibem o investimento e consumo, desacelerando o crescimento do PIB, porém controlando a inflação, enquanto taxas reduzidas aquecem consumo, tornam o crédito mais acessível, resultando em crescimento econômico. Neste último caso, a inflação pode ganhar força.
“De qualquer forma, os efeitos são sempre sentidos no curto prazo e visam manter a estabilidade de preços ao longo do tempo, fator crucial para o aumento da produtividade e investimento no longo prazo”, explica Serrano.
“A política monetária influencia diretamente a precificação dos ativos financeiros. Ciclos de aperto monetário beneficiam títulos pós-fixados e encurtam o prazo médio dos portfólios, enquanto ciclos de afrouxamento favorecem títulos prefixados, ativos indexados à inflação e ações. Os investidores ajustam suas estratégias com base nas expectativas para a trajetória da Selic, alterando a alocação entre renda fixa, renda variável e câmbio, além do horizonte de vencimento dos ativos, de acordo com o estágio do ciclo monetário”, complementa Serrano.
Qual é a relação entre política monetária e política fiscal
A política monetária tem como objetivo a estabilidade dos preços e a manutenção saudável do sistema financeiro doméstico. O instrumento mais utilizado para isso é a taxa básica de juros, que pode acelerar ou arrefecer a economia, visando sempre o controle da inflação.
Já a política fiscal visa equilibrar a arrecadação e as contas públicas, sempre atenta ao crescimento do país. Em um momento de retração, tende-se a cortar os impostos, enquanto em momentos expansionistas a tendência é de aumentá-los.
As ferramentas utilizadas por esta política são divididas em quatro frentes: gastos (funcionários públicos, investimentos em infraestrutura, gastos militares), transferências (pensões e programas sociais), impostos e contribuições e a dívida pública.
Em caso de desarranjo entre as duas políticas é comum que o Banco Central adote uma postura mais conservadora, com o aumento da taxa básica de juros a fim de equilibrar uma eventual política expansionista, com gastos públicos desenfreados.
No Brasil, o debate sobre equilíbrio e responsabilidade fiscal ganhou força nos últimos anos. A relação dívida pública x PIB tem aumentado e preocupado os investidores, que temem um cenário de descontrole fiscal. Neste cenário, o Copom tem reiterado diversas vezes – assim como em declarações do presidente e diretores do BC – preocupação com o tema, sendo uma das principais causas que fazem a Selic permanecer elevada.
Principais dúvidas sobre política monetária
O que é política monetária na prática?
Política monetária é um conjunto de ferramentas utilizadas para manter a inflação dentro da meta estipulada pela Comissão Monetária de Valores (CMN), que atualmente se encontra em 3%.
A principal ferramenta que a autoridade monetária utiliza para atingir este objetivo é o aumento ou a diminuição da taxa básica de juros, que atualmente se encontra em 14,75% ao ano.
Como a Selic afeta meu bolso?
A Selic alta afeta o cidadão comum especialmente na obtenção de crédito ou na utilização do cheque especial. Contrair uma dívida fica mais caro, já que as taxas de juros utilizadas serão mais robustas.
Já uma política de juros baixos torna a obtenção de crédito e financiamento atraente, facilitando, por exemplo, a compra financiada de um apartamento ou até mesmo de um imóvel.
Qual é o papel do Copom nas decisões de juros?
O Copom tem o papel de definir, a cada 45 dias, o valor da Selic, de acordo com os riscos tanto internos quanto externos que ele considera que podem afetar o controle da inflação.
Quando o Banco Central decide subir ou baixar os juros?
A decisão do Banco Central de subir ou baixar os juros depende, principalmente, do controle da inflação. Caso ela esteja acima da meta, a instituição costuma adotar uma postura mais conservadora, subindo os juros, para desacelerar a economia e culminar na queda dos preços.
Caso, contudo, a economia esteja apresentando sinais de estagnação ou até mesmo retração, mesmo com a inflação dentro da meta, o BC tende a promover cortes na taxa básica de juros.
Qual é a diferença entre política monetária e política fiscal?
A política monetária dispõe de instrumentos para equilibrar a inflação. O mais comum deles é a Selic, a taxa básica de juros. Com ela, é possível frear um eventual superaquecimento que pode culminar em disparada da inflação. Já a política fiscal consiste na estratégia que cada governo adota para dosar seu poder arrecadatório e controlar os gastos públicos.
Conclusão
A política monetária é peça fundamental no quebra-cabeça macroeconômico. Sem ela, o giro do motor da economia pode ser muito alto ou demasiado baixo, portanto, sem a dose de equilíbrio necessária.
Neste cenário, portanto, é de suma importância ficar atento às decisões de política monetária do Copom para ver com mais clareza quais as tendências do mercado, e especialmente onde e como investir.
O JOTA cobre com profundidade e técnica as decisões regulatórias mais importantes do país, inclusive as decisões e comunicados do Copom.
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