
Na última coluna, ao tratar do capitalismo de laços sexuais[1], eu mencionei, a partir das contribuições da sociologia econômica, a importância de entender que as interações econômicas acontecem em um contexto social e cultural abrangente e sofisticado, que se estrutura em alguns vértices, dentre os quais as instituições, as networks, o poder e a cognição[2].
Enquanto no texto anterior me dediquei às networks, vou me concentrar agora na cognição, que é fundamental para qualquer tipo de ação, aí incluídas a social, a política e a econômica. Afinal, a forma como as pessoas veem e compreendem o mundo é um fator determinante para as suas escolhas e comportamentos.
Mais do que isso, na esfera social, o conhecimento é reflexivo, uma vez que altera o comportamento das pessoas e, consequentemente, o próprio cenário macro no qual elas estão incluídas. Dito de uma maneira simples, o que cada um de nós pensa a respeito da lei da gravidade certamente não a alterará. Porém, o que cada um de nós pensa a respeito da sociedade, da economia e da política pode alterá-las, na medida em que interfere em nossos comportamentos individuais e estes, quando ganham escala, alteram a própria configuração de cada uma dessas esferas.
Daí por que já me dediquei, em tantas colunas, às discussões inerentes à Economia das Narrativas[3], procurando destacar a relevância destas para o comportamento humano. Aliás, é esta a razão pela qual existe toda uma disputa pelo controle das narrativas ou por aquilo que Chomksy e Herman chamariam de manufatura do consenso[4].
Essa disputa é travada em várias frentes, sendo uma das causas principais pelas quais a propriedade dos veículos de comunicação de mídia – e agora das plataformas digitais – é algo tão importante e estratégico para os agentes econômicos. Aliás, procurei demonstrar recentemente que um dos últimos desdobramentos desta verdadeira guerra é o próprio controle da linguagem[5].
Outra frente importante da disputa é a produção de conhecimento, feita muitas vezes de forma enviesada, financiada por agentes econômicos interessados, sem qualquer transparência ou revelação dos conflitos de interesse[6].
Por essa razão, sustento que há hoje um verdadeiro mercado de ideias, que enseja diversas preocupações, uma vez que, sem os devidos cuidados, é a lógica do dinheiro – e não o valor da ideia ou a sua eventual aderência às evidências disponíveis – que prevalecerá[7]. Logo, o mercado de ideias pode ser extremamente disfuncional, tornando-se um verdadeiro obstáculo para o debate público de qualidade e, em último grau, para a própria democracia. Um grande exemplo é que acontece com a grande mídia brasileira, que é um claro veículo de divulgação da ortodoxia econômica[8].
Por fim, ainda é preciso lembrar do lobby. Já tive a oportunidade de mostrar que a prática, em si, não é equivocada, pois é legítimo que agentes econômicos – ou quaisquer outras agentes – possam influenciar o debate público, seja pelo acesso direto às instâncias políticas, seja de outras maneiras, como o convencimento e a persuasão da população.
O problema é a falta de transparência e o desequilíbrio do jogo, ou seja, quando apenas as ideias de um determinado setor interessado ganham palco, sem qualquer chance de disputa ou debate honesto[9]. Nesses moldes, tenho defendido que o lobby sem limites mina a própria ideia de democracia[10].
Diante de todas essas estratégias, aquelas direcionadas à educação de crianças e adolescentes merece preocupações especiais. Trata-se de assunto já presente no debate público brasileiro há bastante tempo, tendo sido fomentado, mais recentemente, em razão das discussões sobre “escola sem partido” e sobre o ensino domiciliar (home schooling). Como se sabe, o pano de fundo dessas polêmicas é a constatação de que a forma como nossas crianças são educadas influi consideravelmente na sua cognição e, consequentemente, na forma como se posicionarão no mundo e orientarão suas condutas em todos os espectros da vida.
Daí por que é preocupante a recente matéria veiculada pelo portal Aos Fatos, tendo como título “Pressão do agro altera conteúdos de livros escolares, denunciam editores”[11]. A reportagem procura mapear o que a ONG Donme – De Olho no Material Escolar vem fazendo em prol da agenda de buscar uma imagem mais positiva do agronegócio em relação a temas extremamente sensíveis – como mudanças climáticas, agrotóxicos, desmatamento, queimadas, consumo de água, conflitos agrários e escravidão contemporânea – que são trabalhados nas disciplinas de Geografia, Biologia, História e Ciências do 6º ao 9º ano do ensino fundamental.
Segundo a reportagem, os esforços da Donme projetam-se em várias iniciativas, tais como controles de palavras e expressões – de que é exemplo a substituição, nos livros escolares, de agrotóxicos por defensivos agrícolas – pressão para a retirada de determinados conteúdos indesejáveis – como é o caso do MST – ou considerados negativos para o agronegócio ou mesmo a divulgação enviesada das ideias que sejam convenientes para o respectivo setor.
De acordo com reportagem, a ONG alega basear-se em estudo científico que conclui que 50% das menções ao agro são negativas ou extremamente negativas. Porém, o estudo foi financiado por ela, não passou por qualquer tipo de escrutínio público e ainda não explica os critérios que adotou para chegar a tais conclusões, assim como não justifica qual seria a desinformação de que o agronegócio estaria sendo “vítima”.
Ainda há referência à parceria entre a ONG e a Somos Educação, que estariam juntas na produção de vídeos considerados desinformativos pela reportagem, na parte em que exploram problemas socioambientais importantes, como o desmatamento.
Independentemente do mérito das questões em disputa, fato é que extremamente preocupante que o conteúdo dos livros didáticos de nossas crianças possa estar sendo influenciado ou formatado diretamente por agentes econômicos interessados sem o devido debate público ou qualquer mediação ou instrumento democrático que possa assegurar a qualidade das informações. Aliás, o que a reportagem aponta é que, sem a devida fiscalização, o material didático dos sistemas de ensino privado é o mais vulnerável a interferências.
Se a disputa por narrativas- ainda mais quando é feita sem transparência e sem algum tipo de debate ou escrutínio públicos – já pode ser bastante nefasta mesmo diante adultos, é muito mais perigosa em relação a crianças, cujas personalidades e arcabouços intelectuais ainda estão em formação. Além de não terem o devido senso crítico, estamos falando de um público sensível e com alta vulnerabilidade.
Não é demais lembrar que a Constituição Federal, em seu art. 227, impõe como dever da família, da sociedade e do Estado assegurar a crianças e adolescentes, “com absoluta prioridade”, diversos direitos, dentre os quais à educação.
Ora, o exercício pleno do direito à educação depende da infraestrutura de ensino, que, por sua vez, está intrinsecamente relacionada à qualidade dos professores e do material didático. É crucial que todos os cuidados sejam tomados para que nossas crianças não apenas tenham acesso a informações fidedignas, como possam lidar com a diversidade e o pluralismo de visões, a fim de que possam aprender a pensar por si mesmas.
A educação não pode se transformar em instrumento de doutrinação ou controle de narrativas a serviço de agentes políticos ou agentes econômicos. É fundamental pensar nos limites, nas balizas e nos procedimentos – que deverão ser necessariamente democráticos – por meio dos quais os conteúdos do material didático de nossas crianças são selecionados, assim como estabelecer quem pode interferir nesse processo e de que maneira.
Se o mercado de ideias já costuma ser disfuncional, o será ainda mais quando o público-alvo são as nossas crianças. Em se tratando de material didático, não pode prevalecer a lógica do dinheiro e do interesse, mas tão somente a da qualidade da informação.
[1] https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/constituicao-empresa-e-mercado/capitalismo-de-lacos-sexuais
[2] Ver DOBBIN, Frank. The new economic sociology. A reader. Princeton: Princeton University Press, 2004.
[3] https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/constituicao-empresa-e-mercado/economia-e-linguagem ; https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/constituicao-empresa-e-mercado/futuros-incertos ; https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/constituicao-empresa-e-mercado/por-que-o-mercado-anda-nervoso-com-as-recentes-declaracoes-de-lula ; https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/constituicao-empresa-e-mercado/ainda-sobre-a-reacao-do-mercado-as-declaracoes-de-lula
[4] HERMAN, Edward; CHOMSKY, Noam. Manufacturing Consent. The Political Economy of the Mass Media, Black Rose Books, 1994.
[5] https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/constituicao-empresa-e-mercado/nova-fronteira-do-poder-economico-o-controle-da-linguagem
[6] https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/constituicao-empresa-e-mercado/regulacao-ou-desregulacao-por-evidencias-compradas
[7] https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/constituicao-empresa-e-mercado/existe-um-mercado-de-ideias
[8] https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/constituicao-empresa-e-mercado/a-grande-midia-como-veiculo-da-ortodoxia-economica
[9] https://www.jota.info/coberturas-especiais/as-claras/precisamos-falar-sobre-lobby
[10] https://www.jota.info/coberturas-especiais/as-claras/lobby-sem-limite-mina-ideia-de-democracia-diz-ana-frazao
[11] https://www.aosfatos.org/noticias/pressao-do-agro-altera-conteudos-de-livros-escolares-denunciam-editores/
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