
Na definição clássica, espólio é o conjunto de todos os bens deixados por um falecido. O PSDB permanece vivo, porém, politicamente, segue definhando em ritmo acelerado. Para os mais pessimistas ou pragmáticos, o partido está em estado terminal, o que acaba legitimando a disputa pelas fatias do eleitorado que ainda se identificam com os outrora tão poderosos “tucanos”.
Em São Paulo, onde o PSDB reinou, seu espólio eleitoral neste início de 2026 foi quantificado pela mais recente pesquisa Datafolha entre 4% e 7%, a depender dos cenários apresentados. São os entrevistados que dizem ter intenção de votar em Paulo Serra, presidente estadual do partido tucano e pré-candidato ao Palácio dos Bandeirantes.
É neste ponto que os pessimistas se separam dos pragmáticos. Os primeiros dizem que isso é pouco, quase uma vergonha para um partido que já governou o estado por oito mandatos. Os pragmáticos, porém, sabem que, com base na mesma pesquisa Datafolha, os resilientes simpatizantes do PSDB podem ter papel decisivo na eleição em São Paulo.
Segundo a pesquisa, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) lidera em todos os cenários, com taxas de intenção de voto superiores a 40%, e, segundo seus aliados e estrategistas, trabalhará para vencer ainda no primeiro turno. Não por outro motivo, atua para formar uma ampla aliança que isole ainda mais seus opositores.
Lula e o PT sabem dessa possibilidade e da importância do legado tucano (mais até do que de seu espólio eleitoral) no imaginário de um estado que, desde a redemocratização, foi predominantemente comandado pelo grupo político formado, durante o bipartidarismo da ditadura militar, no MDB de Franco Montoro, Orestes Quércia, Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Mário Covas e Geraldo Alckmin.
Nesse cenário, os quadros políticos e, principalmente, os simpatizantes do PSDB são disputados por Tarcísio e pelo campo petista e lulista. Recentemente, o governador se reuniu com o deputado federal Aécio Neves (MG), presidente nacional do partido, e com Paulo Serra no Palácio dos Bandeirantes. Fez referências a Covas (1930-2001) e prometeu dar uma ajuda aos tucanos em seu plano de sobrevivência.
Se tirar o PSDB do jogo já na primeira fase e alojá-lo em sua coligação, Tarcísio estará dando um importante passo para definir a eleição no primeiro turno. É uma manobra arrojada, que, se bem executada, eliminará o terceiro colocado na eleição de 2022.
Do outro lado, a campanha de Fernando Haddad (PT) ao Palácio dos Bandeirantes aposta quase todas as suas fichas em Alckmin e em Simone Tebet. Fundador do PSDB, o vice de Lula foi governador de São Paulo pelo partido por quatro mandatos. A ministra do Planejamento, que nunca foi petista, tem o “physique du rôle” (perfil ideal) para agradar o saudoso eleitor tucano do estado, especialmente o do interior, e furar a “bola esquerdista”.
Alckmin (hoje no PSB) não deverá concorrer a nenhum cargo por São Paulo. No entanto, repaginado e fortalecido após três anos como ministro e vice-presidente, tem sido apontado pelos estrategistas do PT como o grande “cabo eleitoral” de Haddad. Tebet disputará o Senado na chapa encabeçada pelo petista e, em sua primeira entrevista como pré-candidata, frisou que atende a um pedido feito não apenas pelo presidente Lula, mas, também, por seu vice-presidente, profundo conhecedor do eleitorado do estado.
Ou seja, se, ao menos por ora, o campo petista-lulista não possui diálogos fluidos com a cúpula do PSDB, a dupla Alckmin e Tebet tentará falar ao coração dos eleitores do partido na busca de levar a eleição para o segundo turno, o que manteria o maior colégio eleitoral do país conectado à disputa nacional, atualmente polarizada entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL), o candidato de Tarcísio.
Cenário nacional à parte, se quiser vencer, Haddad, em segundo lugar na pesquisa, terá de planejar sua estratégia em dois tempos: no primeiro, forçar para que a eleição chegue ao segundo turno; na fase decisiva, tentar zerar o placar e jogar para vencer. O eleitor do PSDB pode ser fundamental nos dois casos.
Ciente dessa importância, o grupo de Tarcísio acena aos tucanos com postos, em eventual futuro governo, capazes de dar ao PSDB condições de se manter vivo e voltar a crescer. Os estrategistas de Haddad contra-argumentam que o governador e Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD e secretário estadual de Governo, pretendem apenas prosseguir com o processo de fagocitação dos tucanos de São Paulo.
Quando falar para os eleitores, o grupo de Tarcísio lembrará que o PT sempre foi um inimigo do PSDB no estado e se apresentará como herdeiro natural da tradição iniciada por Mário Covas, com quem o atual governador se identifica. Os aliados de Lula reforçarão que o ex-ministro de Jair Bolsonaro é um “bolsonarista” disfarçado de tucano e que, se há um herdeiro do legado de Covas, ele é Geraldo Alckmin.
Assim, o agonizante PSDB, já muito pranteado por viúvos e viúvas saudosos do tempo em que o partido comandava importantes máquinas políticas e administrativas, seguirá vivo ao menos até a eleição, tentando diferenciar o beija-flor do urubu em sua luta pela sobrevivência.
Caminho das pedras
Um profundo conhecedor de disputas para o Senado faz um alerta: Simone Tebet não poderá ficar apenas a reboque de Alckmin em São Paulo, terá de colar sua imagem no candidato a presidente, Lula, e a governador, Haddad. Caso contrário, ficará sem perfil definido em busca de votos de centro.
Caminho das pedras 2
No esforço para manter unido o grupo que lhe dá sustentação, Tarcísio freou, ao menos por ora, as investidas de Valdemar Costa Neto para emplacar um vice do PL em sua chapa à reeleição. A vaga deve continuar com o PSD. Resta saber se com Felício Ramuth ou Gilberto Kassab.
A notícia Tarcísio, Tebet e Alckmin na disputa pelo espólio eleitoral do PSDB apareceu antes em ÉTopSaber Notícias.








