Vídeos de gatinhos fofos não bastam: Lula e Planalto precisam voltar a se comunicar

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A última rodada de pesquisas eleitorais veio como um soco no estômago do governo Lula. Já se esperava uma ascensão de Flávio Bolsonaro, mas não com a rapidez e a intensidade vistas entre dezembro do ano passado, quando foi ungido candidato pelo pai, e este mês de março. A cereja no bolo foi colocada pela Quaest, instituto visto hoje como o de maior credibilidade pelo Executivo petista, que trouxe o presidente e seu principal rival empatados numericamente nas intenções de voto para o segundo turno. A sensação, para quem frequenta diariamente o Palácio do Planalto, é a de que o governo está desnorteado.

É certo que o contexto não ajuda, com o país ainda polarizado e temas espinhosos como o escândalo do Banco Master no topo da agenda política. Mas o problema também passa pela incapacidade do Planalto de se comunicar nesse ambiente mais complexo e do presidente de se posicionar em meio ao inusitado vigor do crescimento de Flávio.

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O sentimento no palácio é de perplexidade. Como pode a isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil, válida desde janeiro, não ter surtido nenhum efeito positivo no humor do eleitorado até o momento? Por que, mesmo com o desemprego em baixas históricas, o aumento da massa salarial e a inflação controlada, o presidente tem tanta dificuldade para alavancar sua popularidade e entrar minimamente em uma zona de conforto?

Por que, se a atual gestão bate a anterior em praticamente todos os indicadores macroeconômicos, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro agora ameaça fortemente os planos de reeleição do petista?

Cabe ao leitor decidir se é verdade que o Brasil de fato melhorou sob Lula ou se esse diagnóstico é pura empáfia. E a estratégia para influenciá-lo nessa percepção passa sobretudo pela Secom, responsável pela comunicação do governo. Mas, do final do ano passado para cá, quando a popularidade presidencial voltou a dar mostras de debilidade, o que se vê é muito pouco ou quase nada nesse sentido.

Na temperatura do noticiário

Sidônio Palmeira foi alçado à pasta após as críticas feitas pelo presidente ao trabalho de Paulo Pimenta, em uma convenção do PT no fim de 2024. Marqueteiro da vitoriosa campanha de 2022, Sidônio logo de largada deu mais agilidade à secretaria e a profissionalizou.

Sob seu comando, a Secom passou a funcionar na temperatura do noticiário e demonstrava uma admirável capacidade de inverter situações desfavoráveis. Foi isso o que ocorreu no episódio do decreto do IOF, em que o rótulo de “governo taxador” foi eficientemente atropelado pela narrativa de que a atual gestão buscava aumentar os impostos dos ricos para reduzir os dos mais pobres.

Uma marca positiva desse período, mas não a única, foi a renovação na linguagem de redes, como no caso dos bem-sucedidos vídeos de gatinhos, criados para explicar a taxação do IOF assim como para defender o projeto de lei de isenção do IR para quem recebe até R$ 5 mil. 

Também funcionaram muito bem as peças publicitárias e falas do presidente em defesa da soberania, adotadas durante o tarifaço de Donald Trump, e o slogan, propagado com a ajuda da militância, de “Congresso inimigo do povo” — com a finalidade de pressionar os parlamentares a avalizar projetos de interesse do Planalto ou a enterrar outros contrários, como o da anistia aos golpistas do 8 de Janeiro.

Essa mesma vitalidade, no entanto, não se vê desde que a maré virou novamente contra Lula, em outubro do ano passado, com a operação policial que deixou mais de 120 mortos no Rio de Janeiro. De lá para cá, houve outros revezes, como a quebra do sigilo de um de seus filhos, Fábio Luís, o Lulinha, na CPMI do INSS, e ministros do Supremo Tribunal Federal sendo dragados para o centro do escândalo do Master. O Planalto e a militância petista como um todo têm sido até o momento incapazes de lidar com ambos os casos.

O mesmo ocorre em relação ao crescimento vertiginoso de Flávio. Desde dezembro, o senador vem navegando calmamente abaixo do radar de qualquer noticiário negativo contra ele. Presidente, Secom e PT, cada um com seu respectivo quadrado, praticamente nada fizeram até o momento para explorar seus muitos telhados de vidro ou fazer um combate que ajude ao menos estancar a sangria.

Há no Planalto quem defenda o papel institucional de Lula, que não pode se portar com a agressividade de um candidato antes do início efetivo do período eleitoral. Por outro lado, experientes conselheiros do presidente admitem que o campo lulista baixou demais a guarda. Não somente em relação a Flávio, mas também no trato com o Congresso e na reação aos escândalos do Master e do INSS. Essa postura mais passiva vem contribuindo para manter o governo contra as cordas a poucos meses das eleições.

Jogando mal com a imprensa

Outros problemas na comunicação do governo precedem o período de Sidônio, mas continuaram com ele no comando da Secom. O principal talvez seja a relação com a imprensa tradicional.

Neste governo Lula 3, as entrevistas concedidas pelo presidente para sites noticiosos e redes de TV não parecem seguir uma lógica nem têm periodicidade clara. Sem mencionar o menosprezo em relação aos quatro grandes jornais nacionais. Lula ainda não falou com exclusividade a Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, O Globo e Valor Econômico.

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É verdade que as redes sociais ganharam muito peso relativo nos últimos anos. Mas os meios de comunicação social continuam sendo atores relevantes para pautar o debate público. Tampouco deixaram de ser uma tribuna importante para o governo e o presidente colocarem suas posições de maneira mais clara, influenciar o noticiário, emplacar pautas positivas e disputar com a oposição o controle da narrativa, inclusive a propaganda nas redes.

Até mesmo a Secom de Jair Bolsonaro e a do criticado Paulo Pimenta compreendiam isso e jogavam melhor com a imprensa do que a secretaria de Sidônio.

Mesmo na era digital, vídeos com gatinhos fofos e slogans de efeito não bastam para ajudar a reeleger o presidente. Lula e seu governo precisam voltar a se comunicar.

Fonte

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