
O avanço recente da inadimplência das famílias voltou, com razão, ao centro da agenda econômica. Não se trata de um tema restrito ao orçamento doméstico. Quando mais brasileiros deixam de honrar compromissos financeiros, o problema transborda para o consumo, deteriora a qualidade do crédito, amplia vulnerabilidades sociais e expõe falhas persistentes no funcionamento do sistema financeiro.
Os números ajudam a dimensionar o problema. A inadimplência da carteira de crédito para pessoas físicas ultrapassou 5% no começo do ano e está em patamar equivalente ao registrado em 2012. Nas linhas de crédito livre — mais acessíveis e bem mais caras — a inadimplência média é ainda maior, chegando na casa dos 7%. Quando ampliamos a lupa e olhamos para a inadimplência do cartão de crédito rotativo, o crédito mais caro da economia brasileira (pelo menos no mercado legal), a inadimplência já ultrapassa o nível de 60% e vem crescendo fortemente desde 2021.
À primeira vista, o quadro atual é desconcertante. O desemprego está em mínima histórica, a ocupação aumentou e a renda média real dos consumidores avançou nos últimos anos. Em tese, esse deveria ser um ambiente mais favorável para a adimplência. É justamente por isso que a alta da inadimplência tem intrigado quem acompanha o tema: ela prospera quando os indicadores mais intuitivos do mercado de trabalho apontam noutra direção.
Esse aparente paradoxo ajuda a localizar a raiz do problema. A escalada da inadimplência das famílias nos últimos anos decorre menos de um nível elevado do endividamento total e mais da qualidade desse endividamento. Em outras palavras, o problema está menos na quantidade de famílias com dívidas, mas mais no tipo de dívida que elas estão contraindo. O traço mais preocupante é o crescente e desordenado endividamento em modalidades de créditoemergenciais e de curto prazo, sobretudo no crédito rotativo do cartão de crédito e do cheque especial.
Isso ajuda a separar sintoma de causa. É exatamente nesse segmento de crédito rotativo de acesso fácil que se concentram os juros mais altos, os prazos mais curtos e o maior potencial de desorganização do orçamento familiar. Aliás, essa é uma boa regra de bolso: quanto maior a facilidade para usar uma linha de crédito, mais cara ela será. E quando entendemos que as famílias estão abusando das linhas de crédito mais caras da economia brasileira, ao mesmo tempo que o Brasil tem o patamar geral de juros entre os mais elevados do mundo, compreendemos que estamos endividando as nossas famílias com taxas de juros entre as mais elevadas do mundo. Sob essa perspectiva, é fácil entender por que as famílias brasileiras, de acordo com dados do Banco Central, comprometem cerca de 30% da renda familiar com o pagamento de serviços da dívida.
E quando analisamos o padrão de consumo das famílias – que claramente está mudando desde a pandemia, com o consumo cada vez mais intensivo de diversos serviços digitais (streamings, aplicativos de transporte, aplicativos de refeição, bets, encomendas internacionais, jogos online etc.) – não é possível apontar nenhum consumo específico como determinante para o aumento generalizado da inadimplência.
Veja, por exemplo, o caso das bets, apontado em análises recentes como a catapulta da atual crise nacional de inadimplência. Apesar da crescente visibilidade e do crescimento do consumo de apostas de quota fixa – em um fenômeno que nada difere dos fenômenos de crescimento dos streamings ou dos diversos aplicativos de compras online – seu impacto agregado na economia e no consumo geral das famílias é bastante limitado. Segundo dados oficiais da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA-MF), o gasto agregado das famílias brasileiras com bets legais em 2025 representou cerca de 0,46% do consumo agregado das famílias (medido pelo IBGE dentro das Contas Nacionais de 2025). E, mais, esse gasto representa cerca de metade do consumo agregado de streaming e menos de um terço do consumo agregado de aparelhos de celular e acessórios. Em resumo, do mesmo modo que não faz sentido afirmar que a inadimplência das famílias tem como fator determinante gastos com streaming e celulares, não faz sentido tal afirmação para bets.
Na verdade, o que os dados evidenciam com clareza é que o crescimento da inadimplência não se explica pelas escolhas de consumo das famílias, mas pelas escolhas sobre como elas contratam o crédito que está financiando esse consumo. Ou seja, não existe reorganização na cesta de consumo que neutralize um problema que é inerente ao atual modelo do mercado de crédito brasileiro. Nem mesmo um programa amplo de renegociação de dívidas será uma solução definitiva.
No contexto atual, o crédito rotativo de curto prazo – em vez de funcionar como instrumento de enfrentamento pontual das emergências da vida ou de antecipação pontual de consumo, até que haja tempo hábil para uma tomada de crédito mais atrativa – passa a operar como instrumento recorrente de ampliação do consumo e, consequentemente, vira um mecanismo permanente de compressão da renda, empurrando milhões de consumidores para uma dinâmica de rolagem cada vez mais insustentável.
Em grande medida, esse cenário também se explica pela rápida expansão da bancarização e da oferta de crédito no Brasil – como mais um efeito da aceleração do processo de digitalização da sociedade nos anos pós-pandemia – que ampliou o acesso da população a instrumentos financeiros mais sofisticados. Isso é positivo e deve ser celebrado! O problema é que esse processo não foi acompanhado, na mesma velocidade, de educação financeira e de capacidade concreta das famílias de lidarem com múltiplas obrigações num ambiente de juros proibitivos, em que não há margem de erro. O acesso avançou mais rápido do que o aprendizado. E, nesse descompasso, o crédito fácil se transformou, para muitos, em crédito perigoso.
Em síntese: juros excessivamente caros, uso desordenado de linhas de crédito rotativo e dificuldade das famílias para lidar com esse tipo de endividamento explicam não apenas o descompasso entre emprego, renda e inadimplência, mas, principalmente, a disparada recente da inadimplência. Não se trata de um desajuste pontual a ser simplesmente remediado. Trata-se de problemas estruturais históricos e de uma dinâmica de consumo alicerçada em incentivos mal posicionados.
Isso não significa que a proposta de um programa federal amplo de renegociação de dívidas das famílias seja descartável. Pode aliviar o passivo acumulado, reduzir danos imediatos e reinserir parte das famílias na vida financeira saudável. Mas é preciso reconhecer seu limite: renegociação é remédio posterior. Atenua os efeitos, não elimina as causas.
A solução duradoura exige atacar a estrutura do problema. Isso passa por reduzir o custo do crédito, aumentar a concorrência e a transparência, desestimular o uso recorrente de modalidades rotativas como extensão da renda e tratar educação financeira como parte da infraestrutura econômica do país. O Brasil não reduzirá a inadimplência de forma consistente e duradoura renegociando dívidas velhas ou interferindo nas escolhas de consumo das famílias. Vai conseguir quando criar as condições estruturais que diminuam a oferta e demanda, em larga escala, de dívidas ruins.
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