
Às vésperas do encontro “olho no olho” entre os presidentes Lula e Donald Trump em Washington, previsto para março, o assessor especial da Presidência da República, Celso Amorim, não descarta os riscos de interferência americana no processo eleitoral brasileiro, ao mesmo tempo em que afirma que o Brasil tem se preparado para esse cenário.
Diplomata experiente e o mais longevo chanceler do país, ele reconhece que tudo o que os EUA fazem afeta, de alguma maneira, o Brasil e suas relações com o restante do mundo.
Em entrevista ao JOTA, Amorim afirma que o país venceu momentos difíceis no passado e o fará novamente. Para ele, Lula tem encarado a realidade sem bravatas, mas também sem medo — mensagem que o próprio presidente americano já teria compreendido. É com esse espírito que o presidente deve embarcar para a capital americana tão logo seja confirmada a data do encontro.
“Eu acho que risco de intervenção sempre tem, de um lado ou de outro, né? E nós temos que estar preparados para nos defender, como, aliás, ocorreu no passado”, disse.
Para Amorim, há muitas possibilidades de cooperação entre dois grandes países com uma relação histórica, e a criação de um acordo de combate ao crime organizado é uma delas. Em sua avaliação, ainda existem “concepções diferentes”, e os americanos têm enviado emissários ao Brasil para dialogar. “Por exemplo, nós não misturamos o narcotráfico, o crime organizado, com o terrorismo”, afirmou.
Segundo ele, é possível conciliar visões distintas. “A política internacional é assim: uma conciliação de visões diferentes, sempre procurando encontrar uma solução pacífica. Uma solução pacífica não só no sentido de não armada, não militar, mas que seja boa para os dois”, declarou.
Amorim avalia que a tarifa global de 10% criada por Trump, após a decisão da Suprema Corte americana de derrubar o tarifaço anterior — que, no caso brasileiro, chegava a 40% e 50% — melhora o cenário da reunião. Sobre a possibilidade de os EUA intensificarem investigações com base na Seção 301, por supostas práticas desleais de comércio, o diplomata afirma não estar preocupado. Segundo ele, não é a primeira vez que os americanos recorrem a instrumento semelhante.
“Eu comecei a enfrentar a 301 quando trabalhava no Ministério da Ciência e Tecnologia, com relação à informática e às patentes de medicamentos. E nós fomos sempre negociando e chegando a acordos com os quais podíamos conviver”, disse.
Amorim afirma que uma das “vacinas” que preparam o Brasil para o novo cenário externo é a diversificação de mercados e parceiros comerciais. A recente viagem do presidente Lula à Índia e à Coreia do Sul, na maior missão comercial já realizada à Ásia, é exemplo disso. Segundo o ex-chanceler, trata-se de reduzir a dependência brasileira, não apenas dos EUA, mas também da própria China, maior parceiro comercial do Brasil.
Ele lembra que, no início dos anos 2000, quando o Brasil negociava a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), o país exportava 25% da pauta ao mercado americano. Hoje, esse percentual não passa de 12,5%. Segundo ele, se o acordo tivesse sido assinado à época, o Brasil talvez estivesse exportando 40% aos EUA e teria enfrentado com muito mais dificuldade o tarifaço de Trump.
Para Amorim, a assinatura do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia (UE), recentemente aprovado pela Câmara dos Deputados, é outra medida relevante nesse processo de diversificação. Pode não ser o acordo perfeito, mas é o acordo possível no momento, afirma, acrescentando que acredita na aprovação europeia. “Senão, quem ficará isolada é a própria União Europeia”.
O Parlamento Europeu enviou o texto ao Tribunal de Justiça da União Europeia. Desavenças comerciais sempre existem, observa Amorim, mas podem ser resolvidas dentro das regras. Caso os europeus exagerem no uso de salvaguardas ou “passem de certos limites”, como afirmou, o Brasil poderá recorrer à reciprocidade.
Oriente Médio preocupa mais que cenário regional
Amorim também comentou o convite de Trump para que o Brasil participe de um Conselho de Paz. Segundo ele, o país estaria pronto para integrar um conselho voltado à questão entre Israel e Palestina, desde que haja participação efetiva da autoridade palestina.
“Somos a favor de criar um conselho sobre Gaza, sobre a questão da Palestina, com participação da autoridade palestina — não um técnico do Banco Mundial que nasceu na Palestina, por acaso”, disse.
O ex-chanceler afirmou ainda que o Oriente Médio é, neste momento, sua maior fonte de preocupação.
“Se você me perguntar o que realmente me preocupa mais do que qualquer outra coisa — claro que me preocupo com o que ocorreu na Venezuela, que isso não pode se repetir; me preocupo com o estrangulamento de Cuba, embora também critique o governo e ache que seja preciso mudança, mas não dessa maneira — o que mais me preocupa é o Oriente Médio. Quando vejo autoridades israelenses falando em um ‘grande Israel’, que implica ampliar o território no Oriente Médio, acho que há aí um fator que pode levar a uma guerra mundial”, declarou.
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