E se a GTA indicasse o CAR?

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Quando o assunto é desmatamento, o Brasil falha por não usar, de forma inteligente, algumas ferramentas que já têm. Um exemplo emblemático dessa contradição está na cadeia da pecuária: enquanto o desmatamento avança associado às atividade do setor, dados essenciais seguem desconectados, permitindo que o gado “mude de origem” no papel antes de chegar ao mercado.

A Guia de Trânsito Animal (GTA) para gado é um documento oficial e obrigatório no Brasil, responsável por autorizar e rastrear o transporte de bovinos. Seu propósito é controlar a circulação dos animais, assegurar a sanidade do rebanho, prevenir a ocorrência de doenças — como a febre aftosa — e regularizar a movimentação entre propriedades rurais.

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Da mesma forma, o Cadastro Ambiental Rural (CAR) é um registro público eletrônico de abrangência nacional, obrigatório para todos os imóveis rurais, cuja finalidade é integrar informações ambientais sobre propriedades e posses rurais, formando uma base de dados voltada ao controle, monitoramento, planejamento ambiental e econômico, além do combate ao desmatamento.

Em conjunto, esses instrumentos poderiam contribuir de maneira efetiva para a gestão, controle e cumprimento das metas de redução do desmatamento no país. Ainda assim, continuam funcionando de forma apartada como se não tivessem qualquer relação.

No início de 2025, uma decisão do ministro André Mendonça, no âmbito da ADPF 760, expôs esse vazio institucional ao determinar que a União apresentasse um plano para compartilhar dados das GTAs com os órgãos de fiscalização ambiental. O objetivo é evitar que gado oriundo de áreas com desmatamento ilegal seja “lavado” ao longo da cadeia produtiva.

O governo prometeu um sistema nacional de rastreabilidade individual do gado até 2032[1], mas o sistema proposto não trará a transparência sobre a situação ambiental das propriedades.  Para isso há solução imediata e possível. Uma delas é bem simples, exigir que o número do CAR conste obrigatoriamente como um campo obrigatório do atual formulário das GTAs[2], e isso permitiria identificar com clareza e transparência a origem do gado e sob quais condições ambientais da propriedade em que ele foi produzido.

Aliás, isso já acontece em alguns estados. Se o cadastro – CAR – estiver suspenso ou inexistente, a guia simplesmente não é emitida. O resultado? Mais controle, menos margem para irregularidades. Não é teoria — é prática administrativa funcionando.

Apesar disso, os números seguem alarmantes. Cerca de 12% do gado vendido diretamente a frigoríficos em Mato Grosso e no Pará tem origem em áreas com indícios de desmatamento ilegal. Quando entram em cena os fornecedores indiretos, o problema cresce.

Os dados do MapBiomas reforçam a lógica incômoda: mais de 97% do desmatamento recente no Brasil decorre de atividades agropecuárias[3]. Na Amazônia, 90% das áreas desmatadas viraram pasto[4].

Em recente estudo intitulado “Gado sujo: a exposição da JBS e da UE a violações de direitos humanos e desmatamento ilegal no Pará[5]”, foi evidenciado como fazendeiros se apropriaram ilegalmente de terras e devastaram os meios de subsistência das comunidades locais, afetando seus direitos à moradia, à terra e à cultura.

Combater o desmatamento e as violações de direitos humanos vinculadas com as cadeias de fornecimento de gado no país que têm mais bois que gente[6] deveria ser prioridade do governo que deveria trabalhar juntos para proteger a floresta e defender os direitos das comunidades que dependem dela.

O desmatamento não é acidente, nem exceção. É parte do modelo. E não é apenas um problema ambiental. Onde o gado avança de forma ilegal, costumam ficar para trás comunidades expulsas, territórios grilados e direitos violados. A devastação da floresta anda lado a lado com a fragilização do Estado de Direito.

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O desmatamento, o mercado e tampouco o clima podem esperar. Adiar soluções simples em nome de metas distantes só beneficia quem lucra com a desordem.

Integrar GTA e CAR de forma célere, não exige nova lei, nem tecnologia mirabolante. Exige decisão do STF e vontade política. Exige admitir que o desmatamento zero não é um slogan para o futuro, mas uma urgência do presente.

A pergunta, portanto, é direta: se já sabemos como fazer, e basta incluir um campo numa guia, por que ainda não fazemos?


[1] https://agro.estadao.com.br/economia/rastreabilidade-individual-de-bovinos-sera-obrigatoria-a-partir-de-2027
https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/sanidade-animal-e-vegetal/saude-animal/rastreabilidade-animal/PNIBVersofinalsemassinaturas.pdf

[2] https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/sanidade-animal-e-vegetal/saude-animal/transito-animal/InstruoNormativaGMMAPA70de2020GTA.pdf

[3] https://alerta.mapbiomas.org/wp-content/uploads/sites/17/2025/05/RAD2024_15.05.pdf

[4] https://brasil.mapbiomas.org/2024/10/03/mais-de-90-do-desmatamento-da-amazonia-e-para-abertura-de-pastagem/

[5] https://www.hrw.org/pt/node/392217

[6] Brasil tem mais bois que gente: rebanho bovino supera população em 12% – O rebanho bovino do Brasil é maior que o número de pessoas no país. Dados de 2024 da Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que o país abriga 238,2 milhões de cabeças de bovinos. O número é 12% maior que a população brasileira, estimada em 212,6 milhões de habitantes.https://www.gazetadopovo.com.br/brasil/brasil-tem-mais-bois-que-gente-rebanho-bovino-supera-populacao/

Fonte

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