Em fevereiro de 2026, a Inteligência Artificial (IA) no ecossistema jurídico brasileiro deixou de ser uma promessa futurista para se tornar um pilar de sustentação. O cenário atual é de consolidação, marcado por uma adoção massiva em escritórios de médio e grande porte, uma integração profunda no Poder Judiciário e um arcabouço regulatório que começa a desenhar as fronteiras éticas da profissão.
1. Panorama da Adoção: Do Contencioso à Gestão Estratégica
A dicotomia entre grandes bancas e pequenas estruturas ainda persiste, mas a barreira de entrada diminuiu. Segundo o levantamento “Análise Advocacia 2026”, cerca de 47% dos escritórios empresariais já incorporaram soluções de IA em seus fluxos de trabalho.
O uso é mais acentuado em áreas de alto volume, como o contencioso de massa, trabalhista, bancário e previdenciário. No entanto, o crescimento mais expressivo vem do Judiciário, que em 2025 já registrava mais de 100 projetos de IA ativos — um salto de 171% em relação a 2021. A tendência para este ano é a integração sistêmica total entre tribunais, facilitando a interoperabilidade de dados.
2. Aplicações Práticas: Onde a IA está Gerando Valor
A aplicação da IA em 2026 foca em casos de uso com ROI (Retorno sobre Investimento) claro, permitindo reduções de 30% a 50% no tempo de elaboração de peças processuais.
- Automação Documental e Personalização: Plataformas como a CRIA.AI permitem a geração de minutas, contratos e petições com a “voz” e o padrão técnico específico de cada banca.
- Jurimetria e Análise Preditiva: Ferramentas como a Data Lawyer tornaram-se indispensáveis para estimar chances de êxito, tempo médio de tramitação e a adesão de teses específicas perante diferentes magistrados.
- Gestão de Fluxos e ERPs: A IA agora atua como um assistente de triagem e classificação de processos dentro dos softwares de gestão, automatizando prazos e alertas críticos.
3. O Marco Regulatório: Resolução CNJ nº 615/2025 e o PL 2.338/2023
Para o advogado, o conhecimento técnico deve caminhar junto ao compliance. O ambiente regulatório em 2026 exige atenção a dois pilares fundamentais:
A Nova Governança do Judiciário
A Resolução CNJ nº 615/2025, que substituiu a antiga 332/2020, estabeleceu diretrizes rígidas de transparência e governança. O ponto central é a supervisão humana obrigatória: nenhum ato jurisdicional pode ser delegado integralmente à máquina. O Comitê Nacional de IA agora monitora riscos e trabalha ativamente para evitar vieses algorítmicos.
O Marco Legal da IA
No Legislativo, o PL 2.338/2023 entrou na pauta de votação definitiva em fevereiro de 2026. O texto foca na classificação de sistemas de “alto risco” e reforça a proteção das prerrogativas da advocacia, impedindo que a IA substitua o raciocínio jurídico estratégico e a relação de confiança com o cliente.
4. Tendências e o Futuro Próximo: A IA como Copiloto
O paradigma mudou: não se fala mais em IA substituindo advogados, mas em IA como Copiloto. As principais tendências para o restante de 2026 incluem:
- Integração Profunda: A IA deixa de ser uma ferramenta externa e passa a ser uma funcionalidade nativa dentro dos ERPs jurídicos.
- Verticalização (Niches): Surgimento de legaltechs ultra-especializadas em nichos como Direito Tributário complexo ou revisões de contratos imobiliários em massa.
- Prompting Jurídico: A habilidade de desenhar fluxos de trabalho e interagir com modelos de linguagem torna-se uma competência técnica essencial no currículo dos associados.
5. Desafios para a Advocacia Moderna
Apesar das oportunidades de produtividade, os desafios são reais. A conformidade com a LGPD e o novo marco legal exige registros rigorosos (logs) de decisões automatizadas e revisões humanas constantes. Além disso, a resistência cultural e a necessidade de requalificação profissional são obstáculos que os gestores precisam enfrentar para não perderem competitividade no mercado.
Conclusão
O mercado jurídico em 2026 premia quem domina a técnica jurídica clássica, mas utiliza a tecnologia para escalar sua capacidade de entrega. Para os advogados que buscam protagonismo, o caminho passa pela validação estratégica da IA e pelo respeito rigoroso às novas normas éticas e regulatórias.






