
Durante muito tempo, as cadeias produtivas globais foram organizadas a partir de critérios essencialmente econômicos. Eficiência, custo e escala orientavam decisões em um ambiente que se percebia como relativamente estável. Esse arranjo, no entanto, vem sendo tensionado por uma realidade diferente, na qual fatores geopolíticos passaram a incidir de forma mais direta sobre a organização da economia internacional.
O que se observa não é apenas uma reconfiguração logística. Há algo mais profundo em curso. As cadeias deixam de operar como estruturas essencialmente técnicas e passam a incorporar, de forma cada vez mais explícita, escolhas de natureza estratégica. A localização da produção, a seleção de fornecedores e até a definição de mercados já não se explicam apenas pela eficiência imediata.
Nesse contexto, o risco assume outro significado. Ele deixa de estar associado apenas a variáveis econômicas tradicionais e passa a incluir elementos como estabilidade regulatória, alinhamento político e capacidade institucional de resposta. Investir, hoje, implica ler ambientes — não apenas calcular custos.
Essa mudança altera, de forma silenciosa, a lógica da globalização tal como foi concebida nas últimas décadas. A fragmentação regulatória, a adoção de políticas industriais mais assertivas e o uso de instrumentos econômicos como extensão de estratégias nacionais tornam cada vez mais difícil sustentar a ideia de neutralidade econômica.
Movimentos como o nearshoring ajudam a explicar parte desse processo, mas não o esgotam. O que se observa é algo mais amplo, uma reorganização que passa também por critérios de confiança, previsibilidade e afinidade institucional — frequentemente associados ao que se convencionou chamar de friendshoring. A proximidade geográfica continua relevante, mas já não é suficiente.
Essa lógica também desloca o papel dos países nas cadeias produtivas. Economias de maior escala passam a atuar não apenas como destinos de investimento, mas como espaços a partir dos quais redes produtivas são organizadas, conectando diferentes mercados e explorando complementaridades.
Para a América Latina, isso abre possibilidades, mas não assegura resultados. A proximidade geográfica e a complementaridade produtiva podem favorecer a inserção em novas dinâmicas, mas sua consolidação depende menos dessas condições e mais da capacidade de produzir previsibilidade.
No caso brasileiro, essa questão se coloca de forma particularmente evidente. A escala da economia, a diversidade da base produtiva e a densidade institucional oferecem condições relevantes para uma participação mais ativa nesse processo. Ao mesmo tempo, tornam mais visível a necessidade de coordenação entre políticas, regras e instrumentos.
É nesse ponto que a inserção internacional tende a se definir. Menos por intenções declaradas e mais pela capacidade de sustentar, ao longo do tempo, um ambiente que faça sentido para quem precisa decidir.
Nesse processo, algumas economias da região vêm se posicionando como espaços complementares dentro dessas redes. Mercados que combinam estabilidade regulatória, inserção em acordos comerciais e localização estratégica tendem a integrar-se de forma mais dinâmica a fluxos produtivos voltados à exportação — como sugere, entre outros casos, a experiência recente da República Dominicana.
Isso não configura um modelo nem aponta para uma trajetória única. Indica, antes, que a inserção em cadeias produtivas passa, cada vez mais, pela capacidade de construir relações de confiança e de oferecer ambientes que possam ser compreendidos e antecipados.
A reorganização das cadeias produtivas não representa o fim da globalização, mas uma mudança na forma como ela se manifesta. Em um ambiente mais fragmentado, decisões econômicas passam a refletir, de maneira mais direta, escolhas de natureza política e estratégica.
Pensar cadeias produtivas hoje talvez exija reconhecer isso com mais clareza. Não se trata apenas de estruturas de produção, mas de espaços através dos quais os países administram riscos, projetam capacidade e organizam sua presença no sistema internacional.
As opiniões expressas são estritamente pessoais e não representam posições do Estado Dominicano.
A notícia Cadeias produtivas, risco e geopolítica: o fim da neutralidade econômica apareceu antes em ÉTopSaber Notícias.








