
O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu com certa dose de satisfação a derrota de Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, neste fim de semana. O pleito, em um dos países que se tornaram praticamente um estudo de caso sobre o avanço da extrema direita global, foi monitorado com lupa pelo Palácio do Planalto, que segue preocupado com o potencial de interferência dos Estados Unidos de Donald Trump em eleições de outros países. Há algumas leituras possíveis das notícias que vêm de fora, segundo fontes do governo. E é preciso estar preparado para todas.
O temor de ingerência no Brasil não se restringe à pressão direta da Casa Branca sobre a campanha eleitoral, que, até aqui, parece querer manter relação cordial com Brasília. Segundo interlocutores, a influência poderia vir de fundações, think tanks e até mesmo das big techs na campanha eleitoral, que começa a ganhar tração.
O resultado das urnas húngaras foi considerado, até aqui, um bom sinal pelos assessores de Lula. Mas não é o único. Há dois fatores com potencial de pesar no âmbito da campanha e que podem, de alguma maneira, aliviar a pressão por interferência no pleito presidencial brasileiro: a queda de braço entre a MAGA e a população norte-americana contra o impulso que as big techs querem dar à Inteligência Artificial, cada vez mais visível em protestos e manifestações públicas; e a perda de credibilidade de Washington em sua operação no Irã.
Ficou claro que JD Vance, como cabo eleitoral, ao participar de comício em uma interferência inédita em um terceiro país, não foi suficiente para salvar a eleição na Hungria e que o toque de Midas ao avesso de Trump ainda funciona. Foi assim na Austrália e no Canadá. Esse seria o lado “positivo”.
América Latina como prêmio de consolação
Pelo lado “negativo”, as derrotas norte-americanas no cenário externo podem impulsionar novas investidas contra a América Latina. Para alguns especialistas e um interlocutor do governo ouvidos pelo JOTA, manter a pressão na região e obter algum resultado tangível pode funcionar como uma espécie de prêmio de consolação.
Trump tem investido em processos eleitorais do que considera seu quintal para favorecer aliados.
Foi assim com a Argentina, de Javier Milei, ao conseguir evitar uma provável derrota do governo nas eleições para o Congresso depois de emprestar US$ 20 bilhões ao país no ano passado. Houve também Honduras e, ainda, o Equador.
A região tem três eleições pela frente: a do Peru, que se encaminha para um segundo turno; a da Colômbia, no mês que vem; e a brasileira, em outubro. Mas a pressão não precisa vir necessariamente das eleições. Não é de hoje que Trump não esconde o desejo de marcar pontos com seu eleitorado tendo como alvo simbólico Cuba.
Um avanço agressivo sobre a ilha preocupa o governo brasileiro, como mostrou o JOTA, porque Brasília se veria obrigada a reagir de maneira mais enfática para agradar à base da esquerda, que tem vínculo emocional com o país. Isso sem inflamar o discurso da direita. Cuba é um tema polarizador. Pode ser que o fiasco do Irã leve Washington a pensar duas vezes antes de se expor em nova aventura militar. Ou não. Mas a verdade é que os EUA já tentaram uma vez no passado, e deu errado.
O fato é que, após a guerra com o Irã, alguns dos mais fervorosos apoiadores do presidente norte-americano no Reino Unido, por exemplo, se afastaram dele. Na sexta-feira, Nigel Farage tentou minimizar sua relação pessoal com Trump. “Eu o conheço, mas isso não vem ao caso”, disse o líder do Reform UK. No ano passado, ele afirmou que esperava se tornar primeiro-ministro “rapidamente enquanto Donald Trump ainda estiver no cargo”.
Outro aliado, David Frost, ex-negociador do Brexit pelo Reino Unido, fez uma mudança ainda mais drástica nesta semana. O membro da Câmara dos Lordes pelo Partido Conservador, que certa vez saudou a reeleição de Trump como a “primeira grande vitória” do conservadorismo nacional, afirmou que Trump mostrou-se “desatento” ao elemento moral da liderança e “indigno de apoio”, escreveu Frost em artigo para o The Daily Telegraph. “Uma linha moral precisa ser traçada em algum lugar e, nesta semana, Trump a ultrapassou.”
Giorgia Meloni, na Itália, promove sua agenda de direita, mas tem feito questão de se afastar de Trump.
Périplo europeu com soberania na pauta
Nesta quinta-feira (16/4), o presidente Lula parte para um rápido périplo por três países europeus — Espanha, Alemanha e Portugal —, os três mais fervorosos aliados do acordo Mercosul-UE, que entra em vigor no dia 1º de maio. Na extensa agenda do presidente, terão destaque a democracia, a soberania e a defesa do multilateralismo. Essa segue sendo a aposta do governo em seu discurso eleitoral.
Em Barcelona, na Espanha, ele participa do Fórum Democracias Sempre, que contará com a presença de 16 chefes de Estado e de governo, entre eles os presidentes do México, Claudia Sheinbaum; da África do Sul, Cyril Ramaphosa; do Uruguai, Yamandú Orsi; da Colômbia, Gustavo Petro; e da Indonésia, Prabowo Subianto.
No governo, a ordem é assegurar que não se trata de evento contra nenhum país ou ninguém em especial. Mas, para bom entendedor, a lista de convidados fala por si.
O encontro terá três eixos principais: a defesa do multilateralismo; o combate às desigualdades, à violência política e digital e ao desequilíbrio de gênero; e o combate à desinformação. Será um encontro de mais ou menos duas horas, mas com direito a declaração final e foto de família. A viagem acontece uma semana após a derrota de Orbán, o que, segundo interlocutores brasileiros, deve entrar nas conversas.
O Brasil segue tentando manter a relação cordial entre Lula e Trump, ou a química a que se referiram os dois chefes de Estado. Nesta semana, equipes brasileiras e americanas se encontram em Washington e devem discutir parte ou toda a relação bilateral. Mas as ameaças de ingerência continuam no horizonte. Até aqui, os ventos parecem favoráveis. Mas não dá para saber por quanto tempo, nem se o governo saberá aproveitá-los a seu favor.
Sinais de fora criam constrangimento para a direita
Os sinais que vêm de fora têm criado constrangimento para a direita brasileira ao se associar a Donald Trump sem custo político. Vide o que aconteceu com Orbán, figura usada como referência pelos Bolsonaros.
O novo ímpeto americano de ir atrás do Pix, com base na investigação sob a seção 301, é outro tiro que pode sair pela culatra, caso os apoiadores de Trump optem por exaltá-lo.
Nesta segunda-feira (13/4), o ICE, nos EUA, prendeu o ex-deputado Alexandre Ramagem. Fontes do governo tentaram minimizar o fato ao dizer que a ação não estava diretamente ligada à relação bilateral. Mas a Polícia Federal informou, em nota, que, sim, a prisão pelo serviço de imigração americano decorreu “de cooperação policial internacional entre a Polícia Federal e autoridades policiais dos EUA”.
Tudo isso terá de ser colocado no cálculo político da direita. Os riscos para um lado e outro continuam no horizonte.
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