O Supremo Tribunal Federal (STF) colocou em pauta uma discussão fundamental sobre a interseção entre o direito à propriedade intelectual e a liberdade religiosa. Por unanimidade, a Corte reconheceu a repercussão geral do ARE 1584106, autuado como Tema 1.471, que visa estabelecer os limites constitucionais para o uso de nomes, marcas e símbolos identitários de uma denominação religiosa por terceiros.
A controvérsia jurídica e o caso concreto
A disputa teve origem em uma ação movida pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias contra um ex-membro e a organização Projeto de Sião. A autora busca a exclusividade sobre termos como “Mórmon” e “Livro de Mórmon”, contestando a distribuição da obra “O Livro Selado de Mórmon” pelos réus.
Em primeira instância, o juízo determinou a proibição do uso do nome da igreja, mas permitiu a circulação dos livros, desde que houvesse clara identificação de autoria. O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), por sua vez, reformou parcialmente a decisão ao entender que o termo “Mórmon” possui uso comum e doutrinário, relativizando a proteção conferida pelo registro de marca no INPI.
A fundamentação do relator e o conflito de direitos
O relator do caso, ministro Cristiano Zanin, destacou que o julgamento exige a harmonização de dois pilares constitucionais: a liberdade religiosa e a proteção à propriedade industrial. Segundo o magistrado, o caráter religioso de uma expressão não exclui automaticamente a proteção marcária, mas o registro no INPI também não confere um monopólio absoluto que impeça o debate teológico ou a referência doutrinária.
Impactos práticos para a advocacia
A fixação da tese pelo STF trará diretrizes claras para o contencioso cível e de propriedade intelectual. Confira os pontos de atenção:
- Relativização de marcas: O julgamento definirá se o registro marcário de entidades religiosas pode sofrer limitações quando o termo se torna de uso comum ou referência cultural.
- Segurança jurídica: A tese servirá como paradigma para tribunais de todo o país, reduzindo a divergência jurisprudencial sobre o uso de signos identitários em obras literárias e religiosas.
- Direito de resposta e identificação: Advogados devem observar a necessidade de distinção clara entre as entidades para evitar confusão no público consumidor, conforme sugerido nas instâncias ordinárias.
- Precedente para o INPI: A decisão poderá influenciar a política de registro de marcas que contenham termos de forte apelo religioso ou doutrinário.
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